quinta-feira, 25 de maio de 2017

TRABALHO

Há alguns anos, uma empresa
pôs anúncios nos jornais
para preenchimento
de vaga de trabalho
com admissão imediata;
proposição de bom salário
mais vantagens adicionais
e em contrapartida pedia:
alguma prática funcional,
um pouco de escolaridade
e, sobretudo, desprendimento.
O segmento alistável
imaginou que se tratava
de algum produto novo
a ser lançado no mercado.
Todos os vendedores da cidade
passaram pelo recurso humano
da empresa contratante,
mas por largo tempo
 ninguém foi selecionado.
Um dia, a firma colocou à porta
aviso de que a vaga fora preenchida,
e em anexo a justificativa da procastinação:
os candidatos, embora virtuosos,
não convenciam, porque procuravam emprego
e aqui oferecemos trabalho.






segunda-feira, 22 de maio de 2017

VELHOS

Parece que muitos não velhos deste país
imaginam que serão eternamente  jovens
porque, via de regra, tratam  os idosos
como se os mesmos fossem  inanimados.

A turma ativa diz que o velho é um peso
a  atrapalhar  a via  rápida  dos  novos:
que  produz bem pouco para o sistema
e em compensação fala muito do pretérito

Bom para o idoso é ser artista tupiniquim,
sobretudo, se o ente fez um nome na praça
porque nestes não se olha  a marca do tempo
nem se excomunga o pecado da pele enrugada.


Nota: minha gente, apesar de parecer mágoa
extravazada nos versos no post, o poema
não foi escrito sob o espírito do recalque,
mas baseado na observação cotidiana das
relações entre as faixas etárias

segunda-feira, 15 de maio de 2017

MEDO

Bendito  tempo aquele
em que eu tinha medo
da mula sem cabeça
e de outras histórias
do nosso folclore
Bendito era o tempo
em que eu tinha medo
de filmes de vampiros
e dos livros de terror
do cult H P Lovecraft.
Bendita aquela época
em que eu andava a esmo
durante as madrugadas
pelas ruas deste país,
porque o perigo que havia
era topar com alma penada
procurando o caminho de casa.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

A HISTÓRIA

A Historia seria diferente
se o sol não separasse
os dias das noites.

Fosse sempre dia
ou sempre noite,
a contagem do  tempo
seria sempre zero

Daí deduzimos. que
Heródoto não é
o pai da criança,
porque o verdadeiro
mentor da História
é o Sol.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

ARTISTA

Dizem que a passagem do tempo
é igual para todos os viventes,
mas quando se trata de artista
ai já  é outra história..,
Hajam vistas, os artistas
saindo do tubo de formol
com a face lisa aos  oitenta
e a cabeleira bem composta
tal  qual se vê em gente moça.
O artista se vê diferenciado
porque a turba o  enxerga
através de outras lentes.
Por vezes. nem tanto
pela arte em si mesma
mas pelo que sai da boca
do arauto engajado.


Nota: ficou a impressão de que generalizo, mas não tenho
essa pretensão. O poema faz referência a algumas figurinhas
carimbadas. Talvez o caro amigo e a cara amiga  que me
leem, lembrem-se de cara, de algumas das figuras a que
faço alusão, em off.




sexta-feira, 5 de maio de 2017

SERES PERVERSOS

Seres perversos, reencarnados aqui,
têm causado danos inomináveis
aos cidadãos de bem deste país.
Haja vista a barbárie praticada
na cidade do Rio de Janeiro
como a queima dos coletivos
sem uma gota de remorso.
Eis apenas um dentre
múltiplos eventos
de malignidade
de todo o dia
Seres desalmados,
assaz perversos,
outros ignóbeis
até certo ponto,
por preguiça
ou desleixo;
eis a seara
de   almas
presentes
agora.




terça-feira, 2 de maio de 2017

HOUVE UM TEMPO

Houve um tempo em que os dias eram  primaveras
de manhãs serenas,  matizadas de anis e  tardes azuis.
As nuvens, quando haviam, eram plácidas e  brancas
e a música que preenchia a alma vinha  das galáxias.

Houve um tempo em que os dias  eram azuis-turqueza,
e as histórias que eu  lia tinham sempre um desfecho bom.
Quando as narrativas saiam do script por mim desejado
eu as modificava, mentalmente, para o deleite do espírito.

Ouve um tempo em que os dias eram como girassóis
e a brisa que vinha da rua tinha uma aroma especial
Os pirilampos estavam presentes por toda a parte
e o arco-íris emoldurava o céu de cada dia.

Houve um tempo que ficou guardado no tempo,
 uma época em que tudo fluía lentamente,
entretanto a gente queria queimar etapas;
almejava ser adulto de uma vez



quarta-feira, 26 de abril de 2017

A MÚSICA ORQUESTRADA PELA CHUVA

Ontem à noite desliguei a tv
para ouvir o som da chuva,
esses momentos especiais
custam-me passar batidos

A peculiaridade sonora da chuva
deslisando  sobre   as  lacunas
da composição  tempo/espaço
soou-me  o efeito de um mantra.

Não sei quanto  tempo durou
a chuva na  noite de ontem,
por certo o tempo necessário
para a alma conectar o divino.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

PALAVRAS

Às vezes, ainda lembro
de um episódio antigo
que me causou espécie
durante algum tempo.
Havia um cidadão,
leitor de almanaques,
que vivia a recitar
frases espirituosas...
E eis que , um pérola
dita pela criatura
causou-me o efeito
de náusea mal resolvida
Mas o rei tempo é um bálsamo:
esponja das angústias da existência;
 um rio que corre para o infinito
serenando as inquietudes da  alma...
Hoje quando relembro do adágio:
a morte é um momento poético
penso que se reencontrasse
o mentor daquele discurso
talvez lhe dissesse isso:
saberemos se a morte é bela
no momento da nossa passagem!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

SE A HISTÓRIA NÃO MENTE ELE FOI O CARA

Nossos sentidos moram no presente
já que o futuro, sabemos, é utópico.
Entretanto, o retrovisor do pretérito
pode, vez que outra, ser espelho.

E por falar em espelho, recuemos
um tanto, à época do Brasil Colônia
e reverenciemos o nosso mito:
Joaquim da Silva Xavier.

Por vezes pode ser perigoso
ater-se a um passado distante,
mas a válvula aqui é sintomática
ante as misérias do aqui  e o agora.

Numa terra onde faltam heróis
mas sobram mesquinhos e crápulas
o bom exemplo deve ser lembrado:
Joaquim, tu és uma referência limpa!





quarta-feira, 19 de abril de 2017

DIA DE ÍNDIO

Meu pai gostava da palavra indiada,
costumeiramente a inseria na conversa.
Eu que ainda não conhecia o significado
pensava em mil coisas distante do sentido.

Quando soube o significado do vocábulo
o teor impactante do termo foi diminuindo
até desaparecer por completo o entusiasmo
que a palavra causava nos ouvidos do infante

Mas meu pai continuava falando indiada
Dizia que a aluzão era uma homenagem
aos nossos parentes espalhados por aqui:
 índio,  elemento nativo da mestiçagem.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

MACHADO DE ASSIS

Já me chamaram de passadista,
piegas, nada a ver, ultrapassado,
porque  gosto  de ler os  autores
formados na escola de Machado.

Minha  percepção, ávida e inquieta
ainda não encontrou nas nossas letras
autores que superem o elevado padrão
presente no  bruxo do Cosme Velho.

Antigo, clássico, dito fora de moda,
porém, bem difícil de ser superado.
Enquanto a caravana crítica passa
continuarei lendo mestre  Machado



quinta-feira, 13 de abril de 2017

TRISTEZA

 Há quem diga, aqui na Banania,
que já não vale a pena ser honesto,
pois a honestidade está fora de moda,
e  a "esperteza" agora é a bola da vez.
Ah, se a moda pega, dirão daqui a pouco
que o crime ( sobretudo, à sorrelfa)compensa.
Eis a dura, triste e vergonhosa realidade
a qual estamos submetidos, contrafeitos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

QUE BOM! QUE BOM! QUE BOM!

Ainda era verão,
e uma brisa leve
ventilava o rosto
da tarde nublada
A gente  olhava
para o algodoal
cobrindo o céu,
ficava matutando
na volta do calor,
sugerindo sombra,
picolé de groselha,
banho na água fria.
A gente ficava pensando
no outono que não vinha,
no inverno ainda distante,
no frio dormindo no polo,
nos cenários dos  filmes
rodados nos países  nórdicos
De repente, despertava do devaneio:
que bom, é outono!








quinta-feira, 6 de abril de 2017

AQUELA RUA E EU

Hoje passei por uma rua
por onde não andava
há uns quarenta anos.
Mas ao cruzar por ali
não tive olhos
para as coisas do tempo
Quem sabe,
o espírito do pretérito,
protegido da curiosidade,
jogou névoa na memória
do caminhante apressado.
Autômato e bucéfalo,
sob o overdose do presente,
já não lembro do ontem.
É provável que muita coisa
haja alterado neste interregno.
Porém o que conjecturo
é que se houve mudança,
quem  mudou, de fato:
eu ou a rua?




segunda-feira, 3 de abril de 2017

POIS, ENTÃO!

O ar ameno destas tardes
suscitam-me suaves lembranças
de um tempo que andava lento
tão lento que gente até pensava
que por séculos seria criança
Mas um dia, de repente, o susto:
puxa, agora, justo agora, sou adulto!


quinta-feira, 30 de março de 2017

ASSIS VALENTE

Talvez nem todo mundo saiba que José de Assis Valente
foi um grande compositor de sambas. Nasceu em 1911,
em Santo Amaro, Bahia. Em 1927 muda-se para o Rio
de Janeiro, vai trabalhar como protético e publica
desenhos em algumas revistas daquela época. Na década
de 30, começa a compor  sambas para Carmem Miranda,
 Orlando Silva, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Marlene
e outros. Assis Valente acossado por dívidas e sem conseguir
 pagá-las, cometeu suicídio em março de 1958.




Parece mentira,
mas este país
já foi diferente,
tão diferente,
que é difícil
de acreditar!
Antigamente,
pessoas se suicidavam
quando tinham
o nome enxovalhado
por dívidas.
Na atualidade,
quando a mídia levanta
o véu que cobre
 indivíduos envolvidos
nas maracutaias,
os suspeitos batem no peito:
sou campeão da honestidade,
tenho um histórico limpo
e uma conduta ilibada.
Ou, então, pegam a tangente:
por que eu fui premiado
se tantos outros fazem o mesmo?
Os caras-de-pau, quando,
condenados pela justiça
 negam, veementemente,
as culpas no cartório.
Outros ainda vão além:
em frentes às câmeras  de tv
levantam o punho no ar.
Deve a nova senha
do sindicato do crime.




terça-feira, 28 de março de 2017

BRIC-A-BRAC

Trabalho no comércio informal
e atuo no departamento autônomo
de compra e venda sem registro.
Não forneço nota fiscal e quejandos,
sem riscos para as partes envolvidas,
porque a garantia do nosso negócio
reside no peso da palavra empenhada.
Eis alguns itens do nosso cardápio:
Compro prata, cabelo e pele de gato.
Vendo barba postiça e perucas usadas
Compro perdidos, achados e dente de ouro.
Vendo dicas, palpites e promessas
Compro contas inativas do FGTS.
Vendo as rotas do mapa da mina.
Compro  números de bilhetes premiados
Vendo segredos das civilizações perdidas.
Compro a bíblia do enriquecimento fácil.
Vendo guia prático de sobrevivência na lua.
Compro ações dos operadores do petrolão.
Vendo manual iniciático do ramo da propina.
Compro compêndios de emagrecimento sem dieta.
Vendo oráculos das pitonisas de Delfos (Brasília)

Aviso aos navegantes: quando formos razoavelmente evoluídos, os
procedimentos aqui elencados não serão compatíveis com a  nossa conduta.

sábado, 25 de março de 2017

ANIVERSÁRIO DE PORTO ALEGRE

Vejo uma cidade num cartão postal,
que não sei aonde foi parar!
Cadê a magia que havia em tuas ruas?
Cadê a rua  encantada dos sonhos
que Mario Quintana sonhava?
Sinto a dor, talvez, não infinita,
das ruas não andadas por Mário,
mas o poeta era mais feliz,
porque a dor que me visita
a sinto nas  ruas por onde ando.


terça-feira, 21 de março de 2017

OUTONO

De onde vem esse aroma
que assanha o nosso nariz?
De onde vem essa brisa
que refresca nossa pele?
De onde vem esta pílula
que recarrega as baterias
de quem andava cansado?
De onde vêm esses augúrios
que despolui nosso espírito,
lavando as nódoas da alma?
De onde vem essa aragem
que revigora o esqueleto
dos fortes, velhos e fracos?
De onde vem este céu
mais suave que o céu,
que havia até ontem?
De onde vem este sentir
que  induz a gente a pensar
que todas  coisas mudaram
mesmo nada mudando?
Ah, sei o que acontece:
é o outono chegando
para ficar conosco
nesta temporada.

quinta-feira, 16 de março de 2017

EDUCAÇÃO, PRA QUÊ?

Parece que algumas cabeças deste país
acham bonito a falta de saber.
A propósito, um ex-presidente gabou-se
de nunca ter lido um livro.
Que a massa sem escola de um país emergente
eleja um par para regular seus destinos
é compreensível, até certo ponto,
mas o incrível é que algumas instituições
desembolsam cachês polpudos
pelas palestras do apedeuta.


segunda-feira, 13 de março de 2017

A DIVINDADE

Outro dia me chamaram de ignorante
porque discordei assim meio por discordar
da essência do discurso  proferido
por um  estudioso das escrituras
O exegeta falava  da necessidade
de louvor ininterrupto   à criação,
para evitar o revanche da ira divina,
por ausência de testemunho à obra
Não sou rebelde nem sacrílego
e sei da causa primordial de todas as coisas,
mas acredito que a Inteligência Suprema
paira infinitamente além do aplauso humano.


sexta-feira, 10 de março de 2017

GAÚCHO A PÉ

Nunca fui ao CTG
nem aos rodeios
nem frequento bailões,
mas digo bah,
e, às vezes, tchê
Sou gaúcho a pé,
 traço um churrasco,
 monto um chimarrão,
porque o amargo da bebida
adoça a alma da gente.
Tentei cavalgar os pangarés,
mas subia por um lado
e caia pelo outro.
Entre xotes e rancheiras,
prefiro os boleros
e o tango dos hermanos.
Das gauchadas,
pouco sou capaz,
exceto, dizer Capaz!
Aliás,  cantarolo, às vezes,
Cleiton e Cledir:
Capaz
que o mundo um dia vá se acabar
...........................................................
Capaz
que exista vida em outro lugar
...............................................
Capaz
que  o homem tenha ido à lua
...................
Sou gaúcho,
mas não visto bombacha,
não sou das pilchas
nem falo  o gauchês,
mas digo capaz,
 digo bah!
e, às vezes, tchê!

quarta-feira, 8 de março de 2017

VOLTAIRE

Quem tira  uma vida   é bandido,
 quem mata muitos homens é herói
mas, por fim, Deus mata  a  todos,
Foi Voltaire quem falou desse jeito.
Diga-se, isso é sutileza de elefante.
Desconheço se criminosos históricos
como Hitler, Stalin, Mao, Guevara
leram uma linha do filósofo francês,
entretanto, para alguns pensantes
essas criaturas viraram deuses.


segunda-feira, 6 de março de 2017

PONHAM O LEÃO NA JAULA!

Lembram daquela música do Roberto:
Um leão está solto nas ruas?
Tempinho bom, né bixo!
Pois é! Bons tempos
ou a gente era bobo!
Sei que naquele tempo,
a boca do leão era pequena.
O reizinho de Itapemirim exagerava,
naquela época o bicho era mais seletivo,
não tinha tanta voracidade por tributos.


sexta-feira, 3 de março de 2017

DE POETA E LOUCO

Dizem que de poeta e louco
todos temos um tanto
Não sei se somos todos malucos,
 mas que temos doideiras,
disso não tenho dúvidas.
Hábitos, manias, cacoetes
que a gente vê no semelhante,
entretanto, dos nossos  próprios,
ah, disso não falamos,
até porque, via de regra,
em nós mesmos,
raramente os percebemos
Por que no fundo, no fundo
nos vemos quase perfeitos.

quarta-feira, 1 de março de 2017

CARNE-VALE

Nesta semana de carnaval
entrei no clima de momo
às avessas.

Fique com tanta preguiça,
que me senti Macunaima.

Com as placas cerebrais enroladas,
não escrevi nenhum reles verso.

Até a leitura de jornal deu sono.

Vendo tanto índio desfilando na Sapucaí
mais a cantilena ufanista televisiva,
fui induzido  ao espírito da Tropicália
contido no Manifesto Antropofágico,
do modernista(?) Oswald de Andrade,
mas parei nas primeiras páginas
para não assassinar Ghoete.
Sou verde-amarelo, sim Senhor,
entretanto, não sou xenófobo.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TIRO O CHAPÉU E VEJO DRUMMOND NAS ALTURAS

Outro dia, um camarada
entre a graça e o chiste
disse-me umas coisas
pensando quem sabe
que eu fosse me aborrecer.
Mas o cara é meu amigo,
portanto achei engraçado
a ironia daquele instante
ao dizer que eu não cabia
na "Política Literária"
do velho Drummond.

Política literária

Carlos Drummond de  Andrade

O poeta municipal
Discute com o poeta estadual
Qual deles é capaz de bater o poeta federal.


Não fiques preocupado, caro amigo,
porque não sou poeta distrital;
vivo na província, também não sou
nem poeta  do  meu bairro
nem da minha rua.
Eu apenas poetizo
lampejos de momentos.







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ANTES DA ALDEIA GLOBAL

Naquele tempo,  gostava
de ouvir o som das palavras,
principalmente das contidas
no universo das proparoxítonas
Muitos daqueles vocábulos
soavam magníficos...
Naquela época, alguns
dos meus prediletos,
se ainda me lembro
eram: clavícula,
ernergúmeno,
farândula,
notívago,
síndrome,
arquétipo,
etc...
Isso foi antes  de Marshall Mcluhan
vaticinar a aldeia global,
porque naquele tempo, havia tempo...
Havia tanto tempo que o PhD de Harvard,
Timothy Leary e seus alunos  faziam
excursões astrais, regadas com LSD...


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O RIO

Quando eu vi
o rio de perto,
que susto,
que espanto,
que assombro!
Meu Deus,
de onde vem
tanta água?
Esse líquido
vem rolando
pelo mundo
em linha reta,
faz curvas,
muda de rumo?
E ele corre sempre
na direção de onde vem o sol?
O rio é tipo gente,
que nasce, cresce
e morre?
Mas tantas indagações
ficavam sem respostas,
porque essas perguntas
eu fazia a mim mesmo!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

FORA DE MODA

O primeiro cigarro posto na boca
queimou-me a língua e os dedos,
produziu-me um acesso de tosse
e um embrulho no   estômago,
mas  estava contente,   porque
seguia o mandamento da mídia;
eu surfava na crista  da   onda
Blindei o pulmão com a fumaça
evolada dos tabacos do mundo.
Achava aquilo bonito e natural:
rostos felizes naqueles flashes
dos comerciais de tv da época.
Mas o tempo passa e um dia
a gente pensa, a gente cansa.
a gente sai do circuito e percebe
que é  bom estar fora de moda.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ZORRA

É sabido de toda a gente
que os órgãos nacionais
da administração pública
na prática não funcionam,
exceto, cobrança tributária,
que é infalível e mortífera...
Em meio à zorra decadente,
deste barco à deriva,
algumas atitudes isoladas
despertam minha atenção
pela dimensão magnânima;
atos deprimentes/comoventes
de afazer desinteressado.
Pois outro dia, um senhor
estava a tapar buracos
numa rua aqui na capital
próximo da Assis Brasil.
justo no seu dia de descanso,
porque já não aguentava
ver os carros quebrando molas
numa sucessão de buracos.
Quando lhe perguntaram
porque fazia aquilo
respondeu meio tímido:
acho  que alguém tem que ir à  rua
dar início ao conserto das coisas
que foram abandonadas
pelos órgãos (in)competentes,
pois caso contrário; logo, logo
voltaremos ao caos primitivo.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

MUNDO

Naquele tempo
eu tinha a impressão
de  que o mundo
acabava logo ali,
naquela esquina,
onde era o colégio
ao lado do campinho
das nossas peladas.
Mas havia um mundo
paralelo, grandioso,
 e poético,
composto de livros
onde eu me achava
e me perdia
e me reencontrava,
em estado de graça.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

O AMOR AINDA ESTÁ NA PELE

Lendo, outro dia,
Fernando Pessoa
deparei-me com este achado:
"Eu gosto tanto dela que não sei como a desejar"
Minha gente, imaginem
um nível evolutivo assim!
O amor seria absurdamente belo
se fôssemos menos sensuais,
se fôssemos menos corpóreos
se fôssemos  mais espirituais.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

GOLPE?

Há momentos em que penso
que não somos racionais
e nos deixamos embalar
pelas paixões primitivas
Não sabemos examinar
com equanimidade,
as questões mundanas.
Hajam vistas, as querelas
em torno das paixões inúteis
relativas a nossa "política".
Digo, do balaio de gatos
em que se transformou
a condução política, aqui,
 nos últimos trinta anos...
Mas, se retrocedermos mais,
chegaremos às maracutaias,
da ditadura, da República Velha,
do Império, do Brasil Colônia...
Pois agora a palavra "golpe"
é proferida com raiva, com ódio,
com fúria,  pelos     adeptos
arregimentados das seitas
societárias do espólio tupiniquim.
Mas que golpe? A troca de seis
por meia dúzia?
Gente, golpe, se alguém o praticou
foi Pedro Alvares Cabral, (inconscientemente)
que ao invadir a grande nação indígena,
da terra do Pau Brasil,
deu início ao extermínio de um povo
 trucidado, pouco a pouco, dentro da própria casa.







quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

HEMINGWAI

Nestas manhãs abençoadas
de temperaturas amenas,
oásis dentro   do    verão,
lembro-me da sugestão
de Enest Hemingwai,
escritor norte-americano:
para criar alguma coisa
escreva a frase perfeita,
sem adornos e retoques,
e terás um bom início.
Mas frases são feitas
de sons   e   palavras,
ferramentas voláteis,
olhando de longe,
o versejante a cismar,
procurando elementos
para mais um poema,
que será esquecido
na varanda do tempo.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

FUGI PARA NÃO SER A BOLA DA VEZ

Os meninos daquela rua,
bons de pontaria,
faziam tiro ao alvo
nas formigas gordas.
mas logo cansaram
da brincadeira
e passaram a  mirar
nos sapos insones
À medida que o metier
deixou de proporcionar
a emoção desejada
 atacaram os gatos
da vizinhança.
Isso faz tempo
e eu os perdi de vista,
porque deixei de passar
por aquele bairro,
quando começaram
a alvejar os vira-latas.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

AS PEDRAS

Caro mestre Drummond,
disseste que havia uma pedra
no meio do caminho
Pois é! Agora tem uma pedreira
obstruindo o caminho!
E agora José?, digo,
e agora Drummond?
Tu  sabias que as pedras
teriam vida longa
por isso te especializaste,
lapidando teus poemas,
para a gente cantar
à guisa de salmos
diante das pedras.
As pedras nascem,
se multiplicam,
mas não morrem,
e estão nas ruas,
nos mercados,
na Petrobrás,
no Congresso...
Caro, Drummond,
exorciza as pedras!




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

SEMEADOR DE VENTOS

Lembro-me do tempo de infante
quando eu cultivava o gosto
de ouvir   frases feitas
havia uma que soava
tronitruante:
"Quem semeia ventos,
colhe tempestades"
Bastava o céu ficar feio
com promessa de chuvarada,
eu sai sugerindo à minha volta,
detenham o semeador de ventos!


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A SAUDADE É LEVE

Não sei de onde
 as crianças retiram
 frases espirituosas
e as  recitam convictas
da mensagem  expressa.
Nós, macacos velhos,
desconfiados  da   verbosidade,
às vezes, exageramos um  tanto
e enveredamos  um pouco,
para a falta de sensibilidade.
Pois, outro dia, um infante
ao ouvir meu lamento
sobre a dor da lembrança,
disse-me  de pronto:
tio. um dia  a dor passa
e além do mais,
a saudade é leve.


domingo, 29 de janeiro de 2017

QUANDO NADA É TUDO

Quando a gente vivia na caverna
não sabia das horas
nem dos dias
dos meses
dos anos
Quando a gente vivia na caverna
também não tinha nome
não tinha  medo
não tinha fome
Quando a gente vivia na caverna
não tinha nada.
Não necessitava
de nada.
Tinha tudo.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

AVENCA

          RESPOSTAGEM

Publiquei este post, aqui,  lá no início do blog e nem lembrava,
porém, ontem à tardinha ao deparar-me com um lindo pé de avenca
no quintal de um vizinho e sentir  vontade de escrever um poema,
lembrei-me de que já havia escrito um sobre o tema. Então, vasculhei o blog e
percebi que havia publicado o poema Avenca, no dia 29 de maio de 2012.
Mas, agora, achei longo e pesado. Dai, fiz uns cortes e o republico, mas numa versão mais leve.


Procurei durante muito tempo
por aquele pé de avenca que havia
no jardim da minha avó,
mas pelos lugares por onde andei
não vi o mimo da minha infância.

Nas minhas várias andanças
através da veredas da vida
vi coisas que não esperava encontrar,
mas o pé de avenca dos meus sonhos
não sei onde foi parar.

Ano passado, construí um jardim
no espaço, atrás da minha casa
esperançoso, preparei o solo
e plantei uma semente no meu coração
mas a plantinha que nasceu não possui
o perfume da avenca da minha saudade.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

TEMPO DE LER

Aparentemente é uma tarde parada
de ruas vazias e praças desertas
de  uma cidade em letargia
Tempo de veraneio;
empregado de férias,
patrão de férias,
estudante de férias,
pobre de férias,
rico de férias,
futebol de férias,
governo de férias,
(governo está sempre de férias)
Quem nunca sai de férias:
 cachorros,
 conchavos,
 maracutaias,
  entorpecentes,
 jogo do bicho,
 acidente de transito,
 crime organizado, etc,
etc, etc...
Eis um bom tempo para ler,
porque sempre é tempo de ler!






quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

IDADES

Quando minhas pernas cansaram
fui socorrido pela bengala
Se ainda fosse jovem
diriam que sou um dândi
mas como a juventude se foi
dizem que sou mesmo um velho.
Quando os olhos perderam o alcance
submeti-me ao poder das lentes,
porém quando defendo meu ponto de vista,
falam: há controvérsia, por causa da miopia.
Quando meus cabelos cansaram de mim
e começaram a voar em todas as direções,
pensei, peruca é algo que não cola, é retrocesso,
mas, de repente, o chapéu pode salvar a pátria.
entretanto, pensando melhor, isso é bobagem,
porque quase todo mundo nasce sem pelos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

UM BRASILEIRO PARA SER LEMBRADO SEMPRE

Neste tempo de vacas magras
e de propinas gordas
quando falta vergonha
e sobra cara de pau
é bom  relembrar
cidadão ilustres
e patriotas
que passaram
por aqui.
Homens,
na acepção
da palavra,
preocupados
com o bem comum
e com a nação Brasil.
Estou  reverenciando
Darcy Ribeiro
o último estandarte
da educação, num país
onde este tema
não está no  primeiro plano.
Pena que Darcy Ribeiro
não tem  sucessor!
Pior para o Brasil!

Não sou  muito dado a frases feitas, entretanto à guisa de homenagem ,
transcrevo aqui  um pensamento do Darcy, que eu admiro:

"Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças
brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer
uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se
autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria
estar no lugar de quem me venceu."


domingo, 15 de janeiro de 2017

A COR DO CÉU

Um comercial de Tv quer saber
qual é a cor do céu.
Um racional metido responde,
é azul!
As crianças veem
outras tonalidades
Elas falam violeta,
dourado, arco-íris,
alegria, esperança,
saudade, lembrança,
natal, primavera...
Os velhinhos dizem
que o céu tem a cor do céu.
E para você, qual é a cor
do seu céu?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

OS BOIS E OS HOMENS

Sabem,  aqueles  questionários
melosos, do tempo de colégio,
de perguntas sobre gostos,
 preferências  e atitudes,
que a gente respondia
imaginando conhecer
as coisas do mundo...
Pois é...doces recuerdos.
Ontem, lendo as respostas
de uma enquete  recente
dirigida a sábios e  afins,
algumas afrouxaram a mola
do cérebro deste velho
e talvez sacudam vossos pelos:
Este país não deslancha
porque os norte-americanos
continuam nos roubando...
A carroça Brasil não anda
porque causa dos vadios...
Ah, vejam também esta pérola:
o povo precisa fiscalizar o governo...
Com essas, lembrei-me de Leonel Brizola:
Venho e volto ao campo e os bois são os mesmos,
não mudam de caráter. Já os homens...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

DEVERIA SER DIFERENTE

Li de um ex-articulista
de um  veículo antigo
da impressa nacional:
o máximo que almejo
de um político patropi,
que ele tenha medo
de roubar....
que tenha medo
de deixar que roubem.
Convenhamos, é o fim da linha!
Pior que almejamos a mesma coisa.
Almejamos que haja uma reforma
que reduza o número de parlamentares,
que haja redução no número de assessores
para que menos gente roubem...
É pau, é pedra, é o fim do caminho;
diria o maestro Tom Jobim.
Falei de Tom Jobim, porque é bom
relembrar as pessoas íntegras...
Como é bom!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

SE

Quando perguntaram
a Chico Xavier
porque justo ele,
ícone da humildade,
usava peruca,
esta foi a resposta
do arauto do bem:
a uso para minizar
o efeito da feiura
provocada pela ausência
dos pêlos capilares,
que minha imagem produz,
e eu não tenho o direito
de chocar as pessoas
com a minha fealdade.
Senhores, se os distintos
congressistas de Brasília,
se autoanalisassem
e se mirassem no exemplo
do filho de Pedro Leopoldo
quem sabe se não paravam,
um pouquinho, pelo menos,
de enfear a nossa História.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

MAIA OU REALIDADE

Dizem os "sábios"
que o mundo é maia
ou falsa realidade,
entretanto aprendemos
 a vê-lo o mundo assim
e quem vive no engano
ao se deparar com a verdade
pode perder a noção de onde está.
Entretanto, tudo pode ser realidade,
para qual ainda não temos visão
porque nosso olhar apressado
não consegue perceber
o mecanismo que rege
o princípio das coisas.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

LEITURA, TUDO DE BOM

Sou de um tempo
em que a leitura
era fundamental.
Na minha casa
era um ato sagrado.
Quando meu pai lia
e alguém abria a boca,
minha boa mãe falava:
olha, o pai está lendo!
Quando eu tinha
uns quatro ou cinco anos,
sentava-me em frente ao pai
e ficava  lendo as  nuances
que a leitura produzia em seu rosto.
Quando ele fechava o livro
 traduzia ao nível da minha compreensão
aquilo que acabara de ler
e eu maravilhado dizia:
 quero ler, quero, quero ler...