sexta-feira, 28 de novembro de 2014

SE NÃO VAI AJUDAR NÃO SE INTROMETA

Por sermos ainda atrasados,
que estamos sempre catando
os eventos à nossa volta,ou seja,
o que outros andam fazendo.

Qual uma senhora fuxiqueira
eu vinha bisbilhotando, à revelia
os passos do meu ilustre vizinho,
um senhor nonagenário, ativo.

Percebi que o nobre distinto
conferia nos relógios, todo dia,
com calor, frio ou chuva
o consumo de água e energia.

Outro dia, já não me aguentando
aquela rotina inócua ( sob meu prisma)
abordei o veterano distraído:
o que leva o Senhor à tarefas inoperantes?

O bom velhinho, olhando de soslaio
disse-me, não me impressiona o seu proceder.
As coisas que eu faço não lhe interessam,
apenas lhe sugiro: viva e deixe viver!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

MILAGRES, O MILAGRE

Nos verdes anos embrenhava-me nos texto
boquiaberto e fixo naquelas passagens
transformadoras de água em vinho,
convicto de que milagres existiam por certo.

Com o tempo nossas certezas balançam.
A gente cresce pondo a crença em xeque,
a autoafirmação substituindo a crença
à medida que a profusão de dúvidas avançam

A convivência com materialistas e a influência
dos livres-pensadores, ateus e anarquistas
retiraram-me a ideia miraculosa da lida.

Mas a carruagem da existência avançou no tempo
e a reflexão demonstrou-me a clareza do milagre,
 a comprovação da tese é a manifestação da vida.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

AS ESTÓRIAS DAQUELE TIO

Quando eu era criança encantava-me
as histórias que o nosso vizinho contava.
Relatos brilhantes à luz da minha insapiência
recontados a pedido da plateia atenta
e saboreados pela imaginação prenhe de curiosidades...
Os vocábulos deslizavam redondos pelos lábios
daquele contador de peripécias improváveis.
De tempos em tempos o artista fechava a casa
e desaparecia pelo mundo a buscar
novas aventuras para o nosso deleite
Ao fim da adolescência tivemos a certeza
de que aquele cara tinha uma missão específica :
que viera ao mundo com o fito de fantasiar
os verdes anos da nossa geração,
porque um  dia nos disse meio sem graça
que nascera, crescera, mas nunca saíra da  cidade,
que quando mentia que estava em recreio pelo mundo,
ficava trancado em sua modesta casa,
criando as histórias que nos contava.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

FRATRICÍDIO

Acuados e temerosos estamos
diante da violência desmedida.
Eis o panorama do momento
pelas nossas capitais e arredores
em tempo de guerra desnecessária.

Indubitavelmente, as guerras abertas
são salvos-condutos para os assassinatos
dos buchas-de-canhões nos campos de batalhas,
mas os não participantes desses eventos macabros
hão de se preocupar apenas com as balas perdidas,
entretanto, nas guerras civis, ao contrário das guerras abertas,
o inimigo sem rosto, surge, de repente, do nada.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

GUERRAS

Guerras são eventos malditos
gerados por cérebros ensandecidos,
mas que  hoje  ficam do lado de fora
do campo de matança  pré-estabelecido.

Provavelmente disputa pela comida
foi a causa da primeira guerra.
Daí nasceu o gosto pela coisa
e começaram a brigar pela terra.

Depois da contenda pela gleba
quiseram  brigar pelas fêmeas
Eram  disputas de vida e morte.
Todos queriam ser machos alphas.

Há quem diga que as guerras são necessárias
para alavancar as técnicas pioneiras
de suporte à evolução material e científica
do indivíduo em marcha para o futuro.

Eu, modestamente, penso que as guerras são inúteis.
Creio que todas as disputas belicosas são insanas,
Acredito que o patrono da guerra é o egoísmo.
Creio no fim das guerras com a vinda do homem solidário.





sexta-feira, 14 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS

Notícia de última hora:
Manoel de Barros morreu
Mas eu tenho certeza:
Manoel de Barros vive

Manoel de Barros, um ícone
ignorado pelos aduladores de plantão
Um maldito adorado pelo amantes
da boa poesia.

Manoel de Barros, poeta ímpar.
Manoel de Barros desconstruiu
o texto acadêmico
para construir sua obra original

Manoel de Barros não morreu
Manoel de Barros foi viajar
Manoel de Barros mudou de casa
Manoel de Barros disse até logo.



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O SONHO DO MÍOPE

Noites dessas tive um sonho
recheado de tensão e angústia.
 Quase como se eu sonhasse
que andava despido pela rua.

Aliás, andar pelado pela rua
virou moda aqui em POA
hajam vistas as peladonas
desfilando pelas praças...

Foi no passeio agora de domingo,
quando voltava, faltou-me os óculos.
Então refiz a trajetória da ida
na esperança de reencontrá-los.

Vi óculos expostos pela rua,
extensa gama de tipos e modelos,
que dentro do sonho pensei:
a cidade inteira ficou cegeta.

Eis  que de repente sem mais nem menos
surgiram mãos alcançando-me  lentes,
que estavam esparramadas pelo chão,
mas nenhuma era as que eu perdera.

Vejam só a incoerência, o contraditório:
se eu havia perdido os óculos que me ancoram
como eu conseguia, míope,  ver com nitidez
todos aqueles objetos pelo caminho?

O bom da história, quando acordei,
foi o final feliz encerrando o susto;
passei as mãos  na cabeceira da cama
e lá estavam minhas companheiras de guerra.













segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A MOÇA, O DOUTOR E O BOBO

Quem já não fez besteira
algum dia, na juventude?
Eu me lembro de tantas,
que por vezes constranjo-me
da autoria daquelas pixotadas...

Compartilhei algumas pitorescas,
mas tranquei   vida a fora
aquelas menos abonadoras,
digamos aquelas mais vexatórias.

Relato agora um evento verídico
ocorrido há mais de quarenta janeiros,
nas tardes de abril daquele ano
em que o Tio Sam foi à Lua.

Segui um cara no centro da cidade,
de segunda à sexta-feira,
por volta da quinze horas,
para saborear o aroma do tabaco
que o cidadão queimava no cachimbo.

Um dia, surpreendido por um amigo
abrigado da chuva na marquise da Casa Massom,
eu, boquiaberto, não tive resposta:
por que todas as tardes daquela semana
eu caminhava atrás da menina morena
desde a Rua Uruguai até até a Galeria Malcon?

Pois eu preocupado com o cheiro
do tabaco holandês não percebia
que o distinto senhor engravatado,
platonicamente à distância, seguia
uma bela moça de minissaia.




quinta-feira, 6 de novembro de 2014

AH, OS MEUS QUINZE ANOS...

Nair tinha a pele cor de pêssego,
os olhos lembravam a tonalidade do topazio,
os lábios possuíam o matiz do ambar
Os passos de Nair eram mais delicados
que a dança sincronizada do Balet Bolshoi.
O sorriso de Nair era tecido pelos fios
que compunham as sedas do do arco-íris...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

POIS É...

Disseram tanta bobagem por ai.
Dirão tantas bobagens à revelia.
Dizem muitas bobagens com o fito
de que acreditemos nelas.
Não haveria nenhum mal que os nossos ouvidos
topassem com esse mar de bobagens,
se estivéssemos no controle do barco,
mas por vezes afrouxamos o leme
e acabamos as assimilando como verdades...