quarta-feira, 28 de maio de 2014

O PAPELEIRO

Por uma rua
do quarto distrito
que eu transitava
todo santo dia,
na década passada,
cruzava um papeleiro,
e seus três cachorros,
conduzindo a informalidade
na direção do depósito
de recicláveis.
O homem aparentava
um ar de contentamento
que eu não percebia
nas outras pessoas,
profissionais estruturados
na gradação do trabalho.
Um dia, de repente,
ao atravessar um terreno baldio
me deparei com um casinha  de lata
e lá estava o papeleiro
conversando com seus três amigos...
Ontem à tarde, caminhava
tomando meu chimarrão,
abstraído do mundo,
perambulando a esmo,
despertei com um som singelo
vinda da casinha de lata.
 O papeleiro tocava
uma gaita de boca
para seus cachorros
e seus gatos...



segunda-feira, 26 de maio de 2014

DIFÍCIL DILEMA

Outro dia, li
em algum lugar
um artigo
onde o autor
baixava o cacete
nos textos precários
postados nas redes sociais
sob a justificativa de
que erros gramaticais
e gráficos
não podem ser admitidos
na comunicação escrita.
Certo. Erros não são admitidos
na escrita oficial,
entretanto, perseguir indivíduos
portadores de dificuldades expressivas
por suas manifestações informais,
parece-me exagero e perseguição,
sobretudo, num país terceiro-mundista
onde a  organização governamental
trata da educação com desleixo.
Erramos todos,
mesmo quem tem um pouquinho mais de luz
até porque se fôssemos sábios
não estaríamos aqui,
mas em outro planeta
mais adiantado.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

VELHOS POEMAS

Muitas vezes surge-me a sensação
de que não há mais nada a dizer
por que toda a poesia já foi dita
Parece que os versos que eu escrevo
são cópias de antigos  poemas;
plágios dos poetas que  partiram...
Mesmo assim a teimosia me impele
a derramar garatujas pelas páginas
que encontro pela estrada à revelia...

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O MAL ESTÁ DENTRO DO HOMEM

Um grande filósofo
do século vinte
disse, que o homem
ainda conduz nas entranhas
o desejo de matar alguém.

A necessidade atávica,
de salvar a pele
e defender a prole,
oriunda das cavernas
não foi sublimada.

Não era por nada,
que Cristo, conhecedor
da psique humana
dizia com autoridade:
trago o caminho da luz,
porém vós que não sois virtuosos
sedes, pelos menos, bons!
Mas ainda estamos distante da bondade,
entretanto discernimos
o bem, o mal, o bom e o ruim,
daí a pergunta necessária:
por que ainda somos maus?


segunda-feira, 19 de maio de 2014

PAGANDO BEM QUE MAL TEM?

O vício que escapa do imposto
entra no rol dos comportamentos mal vistos.
Já o vício regulado, socializado, tarifado
adquire o status de coisa chique.
É o vício permitido respingando
a janela nobre da telinha;
 comerciais midiáticos à Hollywood
patrocinados pelos barris de cerveja
deixam no ar a indutiva - quase certeza -
de que o líquido amarelo não vicia
se bebido com moderação.
A mensagem transmitida no aparato
conduz o incauto à impressão
de que o resultado da beberança
produz, no fundo, o efeito
de um copo de suco de fruta.



quarta-feira, 14 de maio de 2014

JUSTIÇA (?) PELAS MÃOS

A busca da justiça
pelas próprias mãos
não é uma boa ideia
e nunca será solução
para as  contendas humanas
sobretudo por consequência
da fabilidade do nosso juizo,
já que não somos perfeitos.
Quanto mais não seja
quando o sentimento instantâneo
retira o suporte da razão.
Haja vista o crime macabro
praticado pela turba ensandecida
agora há poucos  dias
no estado de São Paulo
quando uma pacata senhora
confundida por um retrato
mal falado
foi trucidada em alto grau de covardia.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

LEMBRANÇAS DO REALISMO MÁGICO



Sara, menina adolescente
continua mamando nas tetas da mãe.
Essa jovem de 14 anos já deu a luz
e é mãe de Ana, menina de quase um ano.
Sara nunca teve leite e por consequência Ana
mama nas tetas da  Avó, Eva, mãe de Sara.
Ultimamente, as jovens mães secas da rua de Sara
fazem fila, com seus bebê ao colo, à porta de Eva.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

NOTICIA DE JORNAL

Aconteceu em Passo Fundo, em janeiro deste ano.


Após diversas invasões
da dupla de larápios
à casa paroquial
o Sacerdote decidiu
adicionar à reza
uma dose de ação laica.
Comprou uma arma,
a registrou
e ficou na defensiva.
Não demorou muito,
 os gatunos voltaram
convictos de sucesso,
entretanto desta feita
o tiro saiu pela culatra,
por que o Reverendo sacou
o berro da batina
e mandou fogo na bunda
dos meliantes.
Passado o alvoroço
causado pela gritaria
dos ladrões em fuga,
o padre explicava à policia,
que nunca aparecera antes:
eu não queria matar ninguém,
mas apenas enxotar esses vadios,
inclusive benzi a munição
antes de usá-la!

segunda-feira, 5 de maio de 2014

OS NEGÓCIOS DA CHINA

Um velho amigo
contou- me, que
em viagem pela Ásia,
foi comprar tenis
numa loja em Hong Kong
e pediu três pares
de marcas distintas,
mas para espanto dele
os calçados eram iguais,
porém as logomarcas
das grifes solicitadas
foram coladas na hora,
pelo vendedor do estabelecimento.

Eu, consumidor de produtos nacionais,
 surpreendi-me no último final do ano, com a tarja
afixada em alguns produtos adquiridos:
a calça, a camisa e o chapéu
traziam escrito em letra miudinha
na etiqueta interna:
artefato brasileiro produzido na China

Depois disso fiquei pensando comigo,
de repente, talvez, no futuro próximo
os bebês brasileiros sejam produzidos na China!





sexta-feira, 2 de maio de 2014

HORA DO RANGO

Os comensais se refocilavam no repasto
às mesas, sob à sombra das árvores,
na churrascaria Barranco, ali na subida
da Avenida Protásio Alves.
Enquanto isso, outros, menos aquinhoados,
cutucavam os galhos centenários
das árvores do Parque Farroupilha
na esperança de que  alguns frutos
aterrissassem em suas bocas.
Ali mais abaixo, andrajosos,
residentes do Centro Histórico
levantavam as tampas dos containeres de lixo
à procura do almoço de domingo.
O repórter jornalista que fazia a matéria
sobre a diversidade contingencial-alimentar
ao concluir o trabalho, disse, meio sem graça:
é a vida que segue...