quarta-feira, 27 de junho de 2012

O QUE EU PRECISO SABER

Acompanho as notícias do mundo,
sei dos últimos fatos globais,
mas desconheço aquilo que acontece
na esquina da minha rua.

Conheço as intrigas palacianas,
descortino o tabuleiro político.
Acompanho o fuxico dos tablóides,
mas ignoro os dilemas da minha família.

Li Sócrates, Kant, Nietzsch.
Mergulheir  no pensamento de Sartre.
Devorei várias resenhas filosóficas,
mas não sei o que pensa minha filha.

sábado, 23 de junho de 2012

ELE

Ele não brincou com os filhos
e não os viu crescer,
corria atrás do vil metal.
Precisava garantir o estudo da prole,
queria encaminhá-los na vida.

Ele esqueceu das primaveras,
dos pôr de sois,
das peladas de sábado,
da conversa fiada com os amigos.
Estava focado na manutenção
do padrão de vida da família.

Passando pela meia-idade
continuava trabalhando
feito burro de carga.
Almejava juntar um milhão de dólares,
queria curtir a vida
à época da aposentadoria.

Mal passara dos cinquenta,
a morte bateu-lhe à porta,
Naquele instante, por alguns segundos,
o filme da vida lhe rodou no cérebro,
quando lamentou com amargura
as possibilidades deixadas no caminho
para viver à posteriori...
Antes de fechar os olhos
lembrou do "Fausto de Goethe" e pensou,
ah, se a morte não fosse inexorável!


quinta-feira, 21 de junho de 2012

INVERNO SUL

É o primeiro solstício do ano,
inverno deste lado do equador.
Faz frio no extremo sul do Brasil.
O vento minuano gela minhas orelhas,
 percorre o pampa desde a Argentina.

O frio traz-me lembranças dos primeiros contatos
com meus autores literários preferidos.
Naqueles dias antigos da infância
descobri um mundo novo
através das asas da imaginação.

As temperaturas baixas estão chegando
e nós, aqui no bico da America do Sul,
vamos para Caxias, Gramado, Canela;
tomando chimarrão, esperando a neve chegar.


sábado, 16 de junho de 2012

PARANÓIA

Hoje eu acordei
lembrando daquele tempo
em que as coisas
não contextualizadas
à luz da realidade objetiva
produziam-me sofrimento.

Aquele modo de sentir
determinadas situações,
afetaram-me de tal maneira,
que os meus pensamentos eram filtrados
por um pseudo censor instalado no cérebro
para que a matéria censurada
não gerasse nenhuma ação prejudicial a minha saúde,
mas mesmo assim...

Eu vivi àquela época
uma paixão platônica
de proporções doentias.
Não conseguindo administrar
aquele amor unilateral,
fui buscar ajuda na ciência.

A partir da segunda sessão,
comecei a pôr em xeque
a sanidade do meu psicólogo,
devido a insistência obsessiva
da repetição das perguntas.
Para contrapô-lo, eu repetia a mesma arenga:
Doutor, quando ela desce do ônibus
na rua sete de setembro,
eu a espero, escondido atrás da estátua do general.
Depois que ela anda uns cem metros
eu a sigo ansioso.
Na esquina da Rua da Praia com a Uruguai,
ela reduz consideravelmente a velocidade dos passos,
quase parando, e eu, afobado, às vezes a ultrapasso,
mas ela nunca me vê,
alias, ela nunca olha para nenhum lado, olha só para a frente.
Cheguei a pensar que ela fosse cega.
Nos dias em que usa minissaia, ela faz o percurso
da Praça da Alfândega até a Galeria Chaves
andando muito rápido.
Nesses dias eu quase corro para não perdê-la de vista.
Parece que a linda sabe que eu a sigo,
porque quando ela sai da calçada para entrar no prédio,
fica parada, com os olhos fixos no fundo da galeria,
 até eu passar por aquele ponto.
Eu percebi que ela não é cega
quando  a vi numa tarde
fazendo o trajeto da volta.
Quase não acreditei na mudança comportamental
que a tarde opera na psique da menina.
Doutor, ela era outra pessoa: gazela saltitante,
observando tudo à sua volta..
De repente o professor falou que necessitava de algumas fotos da menina
para prosseguir com o meu tratamento.
Obter o retrato da minha musa, de manhã, foi moleza;
postei-me na frente dela e clic.
Já na parte da tarde foi outra história;
bastava eu me aproximar com a Polaroid na mão
e ela escamoteava, virava de costa,
ficava na frente dos outros pedestres...
Minha insistência foi premiada numa tarde de vendaval,
no momento em que ela pôs as mãos sobre os joelhos
para evitar que a ventania jogasse o vestido sobre a cabeça,
aproveitei a oportunidade e clic...

Quando levei as fotos ao psicólogo,
recebi uma bofetada de pata de elefante
na cara, ao ouvir:
essas meninas são minhas filhas.
A que tu segues pela manhã é psicóloga.
É uma pessoa arguta, muito compenetrada.
No momento, ela recolhe material para escrever um livro
sobre o comportamento dos tarados.
Já a que tu vês à tarde é cineasta.
Ela é mais dinâmica, descontraída, eclética.
Atualmente ela observa os vadios e desocupados da cidade,
pois pretende fazer um filme sobre o tema...
Deixei o mestre falando sozinho,
nunca mais voltei lá.
Larguei aquela gente de mão.




quinta-feira, 14 de junho de 2012

UMA PITADA DE POESIA

Hoje tenho a certeza
de que nunca farei
um poema original.

Tudo já foi previsto
tudo já foi escrito
tudo já foi dito.

Mas não ficarei triste
se a minha escrita
não for eleita.

Eu não escrevo
por necessidade
de ser aplaudido.

Dou-me por satisfeito
com a possibilidade
de ser autêntico.

No fundo
procuro compartilhar
uma pitada de poesia.



segunda-feira, 11 de junho de 2012

A POESIA ESTARÁ ONDE TU QUISERES

Engana-se quem pensa
que a poesia é arte
exclusiva dos poetas,
pois de poeta e louco,
todos, temos um pouco.

Engana-se quem pensa
que a poesia está aprisionada
nas páginas dos livros
ou que vive armazenada
na cabeça de quem a escreve.

Engana-se quem pensa
que a poesia é virtude
de uma casta eleita.
A poesia quer ser compartilhada
e para senti-la, basta buscá-la.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

VALORES

Há muito anos,
numa época
de crise de emprego
eu procurava colocação
em qualquer área
sem consultar proventos
pois precisava de trabalho.

Um dia, de repente, li
um cartaz afixado
à porta de um escritório:
oferta tentadora de emprego,
proposição de salário elevado,
sem a necessidade
de prática na função
nem aferição de escolaridade,
exige-se apenas compromentimento,
entretanto, todos os quesitos
serão avaliados
para o preenchimento da vaga
de início imediato.

Ficamos imaginando
que se tratava de vendas,
mas quem não entendia de vendas
e todos os vendedores da cidade
não passamos na seleção.
Durante vários anos
nenhum candidato foi aprovado.
Quando a gente já pensava
que aquilo era uma brincadeira de mau gosto,
que não havia nenhuma vaga disponível,
finalmente um candidato foi selecionado.
Então, o acessor de imprensa da firma
foi à mídia explicar a questão:
Atá agora, os candidatos
eram cheios de virtudes,
não convenciam porque era perfeitos,
mas o candidato aprovado
deixou transparecer todas suas fraquezas;
foi sincero, e a sinceridade e a transparência, entre outras coisas,
deve ser o lema de todo e qualquer emprendimento sério.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

NEM TUDO QUE RELUZ É OURO

Durante muito tempo
pais preocupados
com a  educação
dos  filhos pequenos
estiveram de olho
nas famosas revistinhas
de sacanagens...

Apesar de a moral e os bons costumes
ser uma premissa civilizatória,
hábitos mudam  e o sistema induz
o indivíduo a fazer bobagens
renegando condutas saudáveis
porque tais comportamentos
segundo os ultramodernistas
se tornaram desnecessários...

Assim sendo, lembro àquelas pessoas
que ainda se preocupam
com a educação dos seus  herdeiros:
retirem as crianças  da frente da telinha
por que os canais de  tv, na ânsia de  angariar
 pontos de audiência na grade do Ibope,
estão  levando ao  ar aulas de sacanagens...