segunda-feira, 28 de novembro de 2011

POETAR

Eu estava sentado num banco da praça
com o pensamento distante das coisas do mundo
e ao mesmo tempo tão compenetrado
na minha condição humana
quando passou um andarilho recitando uns versos,
que segundo o próprio, acabara de compô-los:
" Minha gente, não fiquem assustados com a energia
impregnada na atmosfera desta praça;
 a poesia invadindo as lacunas do nosso corpo,
conectando nossos canais receptivos
às coisas sublimes que pairam acima de nós.
Que ninguém imagine que  perdeu o senso crítico
ou que voltou a ser criança,
mas  penetrem no sentido desta lei:
Quando  estivermos disponíveis para o sublime
transmutaremos qualquer realidade,
porque apesar da mazelas do mundo
ainda  é possível sonhar!"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

FORO

Acordei angustiado e confuso
com sensação aguda de culpa
sem conseguir lembrar
do tipo de mal que pratiquei.

De repente o quadro ficou menos obscuro
mas nada tranquilizante
foi  quando os vocábulos,
os caracteres, os signos
dos  poemas que eu havia escrito
anunciaram a natureza do crime cometido por mim:
violação da pureza da palavra.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

CONVULSÕES INTERIORES

Antes de virmos para cá,
cataclismos de proporções gigantescas,
confusão dos elementos terra, água e fogo
e fenômenos de toda ordem
convulsionaram o planeta
durante milhões de anos.

Pouco a pouco,
as energias que atuavam
com extrema violência
foram se estabilizando
até surgir as condições mínimas
de suporte à vida.

Excetuando alguns eventos
definidos e localizados em lugares específicos
constata-se que a terra passa
por um período
de relativa estabilidade.
Aquelas convulsões primárias
da noite dos tempos
foram transferidas
para dentro do homem.
E o navegante, na travessia do mar da vida,
sofre as consequências dos temporais interiores.
Enquanto essas forças instáveis
que estão agindo no  nosso âmago
não serenarem por completo
não encontraremos a felicidade.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

AÇÃO E INAÇÃO

Quando eu contornava
o fim do parque
onde começava a floresta,
via um homem parado,
olhando para o vazio.

Aquilo me impressionava,
porque naquela época,
eu era um jovem inquieto,
andando de lugar para outro,
seduzido pelo movimento.

Eu praticava cooper naquele tempo
e costumava fazer percursos variados,
mas no decurso dos dias
acabava repetindo trajetórias.

Sempre que eu passava por ali,
via o homem inerte, feito uma estátua.
De início não me incomodava muito,
mas depois de alguns meses,
veio-me um estado de angústia.

Nervoso, um dia abordei o homem
e perguntei-lhe o que ele achava
do meu exercício, tão diferente do seu.
Daí, ele perguntou que atividade eu praticava
- então, eu falei, não me vês passando por aqui
nos finais de tarde?
- Ora, nunca havia reparado, pois cuido do meu mister.
- Mas o que tu fazes aí parado, aparentemente afastado de tudo?
-  Bem, depois do trabalho, eu exercito por algum tempo a arte de ouvir o silêncio!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PALÍNDROMOS

Por mais centrados e objetivos
que sejamos
 num momento qualquer
muito provavelmente
haveremos de baixar a guardar
para penetrar no território
da cultura inútil.

Hoje, acordei neste país
de elocubrações  gratuitas
e me agarrei na Palindromia
como  quem segura a cauda duma pipa.

Mas eu tenho um motivo forte
para falar de Palíndromos
por que hoje é dia 11,
do mês 11 e do ano 11
Se estivéssemos no século 11
então seria uma Palíndromo saturadamente perfeito.

Eu e muita gente
na época de catar letras
para formar as palavras
achava divertido os Palíndromos elementares
da nossa língua
Lembro-me que OVO era o líder da turma.

Mais tarde iríamos achar
os Palíndromos numéricos
e algumas fórmulas para se brincar nessa região
Como, por exemplo, somar 2 números opostos
para formar um Palíndromo:
25 +  52 = 77

Ou formar formar um Palíndromo em dois passos:
 14 +  42 = 56
56 + 65 = 121

Formar um Palíndromo com 3 tacadas:
68 + 86 = 154
154 + 451 = 605
605 + 506 =  1111

Porém, como tudo neste mundo é relativo
existem alguns números rebeldes
que não aderiram à palindromia,
como o número 196,  por exemplo:
196 + 691 = 887
887 + 788 = 1675
1675 + 5761 = 7436
7436 + 6374 = 13783
13783 + 38731 = 52514
52514 + 41525 = 94039
e  continuando as etapas operacionais
chegaremos à exaustão
sem ter encontrado o Palíndromo deste  número,
donde se deduz que o número 196
jamais faria sucesso na política
por ser avesso às composições harmônicas

Mas seja como for
a vida continua
com ou sem Palíndromos,
entretanto, saudemos o nosso  Palíndromo
Ave 11/11/11
Ele não é bonitinho?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A POEIRA DO TEMPO

Passei boa parte da minha juventude
ouvindo músicas através do rádio
e nos Lps rodados nas vitrolas.
Naquele tempo o radio
fazia a cabeça da galera.
A gente ouvia no dial
os lançamentos da jovem guarda
e das estrelas do rock e do pop.
Depois a turma se reunia
em saraus mágicos
e ficávamos ouvindo os compactos
dos mutantes, da Gal e do Roberto
e os Long Plays do Elvis, do Johny Mhatis
e dos Beatles...

Um dia"eles" disseram:
o sonho acabou!
mas para nós ainda havia
muito sonho pela frente.

Ah, o tempo voou!
As nossas patotas acabaram,
a jovem guarda envelheceu,
as meninas casaram,
Roberto reciclou,
nossos filhos cresceram,
a gente engordou,
a Vanderléia continua linda,
o mundo mudou,
mas a saudade é muito grande!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

POESIA. AH, POESIA!

Entre estufetato e assustado
ouvi esse triálogo outro dia
entre um adolescente e seus pais
em meio aos stands da Feira do Livro.

Mãê, compra o livro do Chico Buarque prá mim.
- Prá  que tu queres este livro?
-  Leitura sugerida pela sora
- Tua professora está se intrometendo
- Ela  disse que  é uma  leitura inteligente
- Tu deves ler os jornais.
- Jornal  é diferente de livro
- Jornais tem bons colunistas, alguns são até escritores.
- Não gosto de jornais. Eles trazem as coisas que eu vejo antes na Internet.

Paê, compra este livro do Marcel Proust?
- Menino tu não  tens  idéia das coisas
que esse cara escreveu
- Como não! Já vi alguns trechos dele na Web
- Tens  certeza de que se tratava do Proust ,
sujeito massudo, rabujento, embromão?
- Claro! Li trechos do 1º volume. Estilo  bem descritivo,
mas gostei de Albertine, Germantes. Pretendo ler os 7 volumes
de "Em busca do  Tempo Perdido"
- Tempo perdido é continuar insistindo, porque
eu vou  comprar mesmo é uma enciclopédia.

Mãê, paê, vamos negociar para ficarmos no meio-termo?
- Os dois falam ao mesmo tempo, tipo coisa combinada anteriormente:
Pode ser a coleção  Harry Potter?
- Nada disso. Caraca!
- Novamente, os dois:
 Então tu queres a coleção de dvd dos filmes  do Potter ?
- Quero o último livro do Manoel de Barros
- O quê, eu e tua mãe  nunca ouvimos falar desse cara!
- Ah, então, pode ser a coleção do Mario Quintana.
- Poesia, não! Poesia, não!
 - Por que não, se já escrevo alguns poemas?
- E os dois, ao mesmo tempo, nervosos, quase gritando:
Por que poesia amolece os miolos!