terça-feira, 28 de junho de 2011

OS COMERCIAIS, POR FAVOR!

As pessoas mais rodadas, certamente,
ainda lembram
das antigas propagandas de cigarro.
Os mais jovens talvez não saibam
que os comerciais de tabaco eram lindos,
vendiam a idéia de que os fumantes
eram pessoas saudáveis, felizes e inteligentes.

Após algumas décadas de lutas,
a Organização Mundial da Saúde conseguiu
retirar dos meios de comunicação
aqueles comerciais nefastos.

Mas lembremos daquele ditado:
Rei morto. Rei posto!
Pois é, ao cabo da divulgação do cigarro,
a cerveja foi a bola da vez:
artistas famosos atuando em propagandas
de grandes beberagens.

No fim de um comercial televisivo,
de mais ou menos dois minutos,
encharcado de teor etílico,
aparece uma tímida advertência:
beba com moderação.

Do jeito que a coisa vai
não devemos nos espantar
se algum marketeiro sugerir
que se coloque a mão
sobre um fio de cobre desencapado
e ligado à luz elétrica.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

FICÇÃO

Isso que vou lhes contar
parece ficção, mas é ficção
tecida nos liames da realidade.
Algumas metáforas do imaginário
são nada mais que ensaios
da vida cotidiana.

A confraternização popular
à entrada do equinócio,
evento aberto ao desfrute
de todos os trabalhadores
após a jornada diurna de trabalho
defenestrou uma categoria trabalhadora.

Os organizadores do encontro
- homens das mãos sedosas
e de espíritos obtusos -
barraram o ingresso dos garis na festa
- homens de corpos suados e mãos carimbadas -
Os senhores das mãos cuidadas,
excessivamente zelosos
com a limpeza de modo genérico,
violentaram o contrato social
e abortaram a alegria dos lixeiros.
Mas todas as demandas do mundo
cobram o ônus político do ato planejado.
Decorre daí, que toda a ação
acarreta uma reação.
Então, depois da festa,
os catadores de lixo deram o troco
e entraram em recesso compulsivo.

Os senhores da mãos leitosas
exigiram junto ao tribunal do trabalho
o retorno dos grevistas à labuta.
Mas os lixeiros permaneceram
surdos às ordens e às ameaças
do poder estruturado
E por mais absurdiosamente kafkeano
possa parecer, enquanto a cidade
ficava atirada à sujeira e à imundicie,
os garis passavam os dias lendo,
sentados nas praças, os livros de Kafka.

domingo, 19 de junho de 2011

AS CALÇADAS

Minha vida de pedestre
está embaçada.
As calçadas da cidade
já não me pertencem
há muito tempo.

Sinto saudades da época
em que as calçadas
eram conservadas com zelo
para o uso do caminhante.


Os valores antigos
foram jogados
para os bueiros das esquinas,
mas ninguém reclama;
estamos todos apáticos e resignados
diante da usurpação dos nossos direitos.

As calçadas foram tomadas
pelas bancas de revistas,
pela turma dos skates,
pela associação dos desocupados,
pela concentração dos estudantes em frente aos colégios,
pelo condomínio dos mendigos,
enfim, o pedestre foi empurrado para o meio da rua...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Nair

Aos doze anos
fiz meu primeiro poema.
Era de uma singeleza franciscana.

O poema era composto
de quatro linhas
mal rabiscadas
pelas minhas mãos Trêmulas
em consequência do medo
de ser flagrado
no ato de delito:
uma declaração de amor.

O poema era endereçado
à menina Néria,
colega de classe
mas devido a confusão
dos meus garranchos
ele foi parar
nas mãos de Nair
dois anos mais velha,
aluna de outra classe.

Do resultado daquele equívoco
floresceu uma grande amizade
na nossa primeira juventude.

Nair ensinou-me coisas
que eu nunca esqueci.
Ela trouxe-me os autores
que foram meus favoritos
durante muito tempo
como o Eça, o Balzac,
o Jack London...
Ainda apresentou-me Bill Halley e seus cometas,
Elvis Presley, Bob Nelson...

Foram dias de sonhos,
de amizade, de encantamento
e de paixão...

Lembro-me dos dias em que fiquei acamado
em virtude do sarampo.
Naquelas duas semanas
Nair aparecia lá em casa
todas as tardes depois do colégio
e lia em voz alta
os colunistas do Correio do Povo
ou alguma coisa do Mario Quintana.
Outras vezes adivinhava meu pensamento
e escrevia de improviso um poema
que eu gostaria de ter escrito.

Nair não me permitia falar
da atração que eu sentia.
Sempre que eu procurava falar no assunto
chamava-me de bobo,
dizia que eu ainda era criança
e não devia apressar o rio...

Mas um dia a casa caiu.
Nair - com os olhos vermelhos-
abraçou-me emocionada
e falou baixinho:
meu amigo, teremos de ficar afastados
por algum tempo;
minha família está de mudança para o Norte,
pois a empresa em que meu pai trabalha
vai para aquela região.
Mas não te preocupes,
eu voltarei mais tarde
ai tu serás um rapaz feito
e teremos todo o futuro pela frente...

Mas Nair não voltou!

Hoje, passado quase meio século,
quando me lembro daquele tempo
meu coração fica perguntando,
Nair, por onde tu andas?

terça-feira, 7 de junho de 2011

A PET E A CONSCIÊNCIA

O condutor da carroça, distraido
deixou cair uma pet cinco litros, vazia,
tipo recipiente de água,
às três horas da tarde,
no cruzamentos das avenidas
São Pedro com Farrapos.

No instante em que o semáforo
abriu para os pedestres
o vento jogou a pet
para a faixa de segurança.
As pessoas de passagem, indiferentes,
olhavam para a peça plástica
como se ela houvesse nascido
ali no meio do asfalto.

Três rapazes atléticos,
estilo usuários de academia
deram três ou quatro chutes
no utensílio indefeso,
mas por causa do vento
que soprava naquela tarde
a garrafa voltava ao lugar
de passagem dos transeuntes.

A menos de cinco segundos
para abrir o sinal dos carros,
uma moça apanhou o brinquedo dos meninos
e o conduziu por uns duzentos metros
até encontrar um receptáculo disponível
para reciclável na calçada.

Eu, que, extático, observava o evento
senti-me no dever de parabenizar
a atitude desprendida daquela mulher
e no instante em que fazia
fomos ridicularizados por um cidadão
que acompanhava tudo de perto.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A PORTO ALEGRE OCULTA

Fui perceber que
não conhecia a minha cidade
quando a vi despida
num domingo de manhã.

Era mês de janeiro,
um dia de céu encoberto
e não havia ninguém
andando pela rua.

Nos dias comerciais
o coração artificial
da cidade,
composto pelos serviços
e pelo ir e vir incessante
da multidão assustada
com o próprio método de procura
de alguma coisa
que justifique o stress
oriundo das engrenagens modernas,
cria uma cortina de fumaça.

Para se descobrir
os mistérios adormecidos
de uma cidade antiga
é necessário despir-se
de toda idéia preconcebida,
de todo o pensamento valorativo,
isto feito, é possível
penetrar na sua essência
e absorver o seu espírito.