quinta-feira, 28 de outubro de 2010

INDIOSINCRASIAS

Felizes, aqueles que vivem
nas aldeias, nos povoados,
nas cidadezinhas perdidas no mapa,
nos pequenos lugarejos
distantes do mundo.

Nesses pequenos paraisos,
como numa colmeia,
vive o indivíduo solidário,
o homem natural
integrado á comunidade.

Em contrapartida,
nos grandes centros,
o homem burocrático
foi engolido
pela solidão profunda,
intrínseca à multidão.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

AS ANDORINHAS

Quando eu era criança
esperava na minha janela,
antes da chuva,
a passagem das andorinhas.
De repente o céu ficava cinzento,
o vento soprava mais forte, vindo do sul
e as andorinhas revoavam na direção da praia,
eu antegozava os primeiros pingos de chuva.
Era questão de tempo e a água descia.
E eu de alma lavada, na minha janela,
esquecia-me do mundo.

Outras vezes, nas manhãs ensolaradas,
as andorinhas faziam o voo de ensaio da chuva
Então, a gente sabia,
que naquele dia iria chover
e mesmo que a metereologia afirmasse o contrário,
sempre acabava chovendo.

Hoje, descendo a rua
da ladeira da vida
ao ouvir as previsões
dos institutos climáticos,
que determinada frente fria
trará chuva,
eu escorado em outra janela
e olhando para o céu,
lembro do passado
e falo com a criança que fui um dia:
"São as andorinhas que trazem chuva!"

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ATÉ QUANDO?

Ontem, lemos nos jornais
que três pessoas morreram
na cidade do Rio de Janeiro
enquanto aguardavam leito
num hospital daquela cidade.

Isso acontece
quase todo o dia
em algum hospital
deste país.
E o pior de tudo:
estamos ficando insensíveis
ante à banalização da desgraça.

Sabemos que somos mortais;
também sabemos da nossa responsabilidade
pela saúde do corpo
e que existe uma constituição
que prega proteção à vida;
mas, no entanto parece
que vivemos numa aldeia
afastada da civilização,
à mercê da fatalidade.

Nosso país evoluiu
em muitas áreas
entretanto nem tudo andou
a par e passo,
sobretudo porque as autoridades
não cuidam
daquilo que deve ser
a preocupação básica
de todo governo responsável.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA DE OUTUBRO

Vinte e nove  de outubro,
sexta feira à tarde,
na Praça da Alfândega,
tenho um encontro marcado
com uma jovem cinquentenária.
Essa senhora vive no meu coração
desde o meu tempo de menino
Apesar do ótimo relacionamento
 existente na nossa relação
estou ficando ansioso
à medida que a data se aproxima.
Acho que no fundo, é um pouco de timidez
que sinto ao expor minha paixão aos olhos do mundo.
Diz-se:
para o amor não há idade,
para o coração não existe distância
e para o amante o tempo não passa.
Assim os anos se sucedem,
mas a minha amada rejuvenece,
então, quem não conhece sua história
nem imagina que ela nasceu
lá na década de cinquenta.
Bem, vou ficando por aqui,
outro dia voltarei ao assunto.
Hoje, com emoção na voz, te saúdo:
bem-vinda, Quinquagésima  Sexta Feira do Livro de Porto Alegre.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O pequeno cão
com as patinhas quebradas
foi jogado na rua,
mas os samaritanos
estavam míopes.

Muita gente
passou por ali
mas, todos, ocupados,
não tiveram tempo
para o bichinho doente.

Passou o político
maturando projetos,
passou o crente
conectando os anjos,
passou o poeta
falando com as musas,
passou o viciado no jogo do bicho
conjecturando:
eu divido o número do cachorro
pelas patas quebradas
e jogo no "primeiro ao quinto",
mas o pobre animal continuava
atirado à sarjeta...

Por fim passou o catador de papel
exaurido pela labuta insana,
com a mente vazia de qualquer pensamento elevado
e tropeçando sobre os efeitos da aguardente;
juntou o animal, subiu e desceu a rua diversas vezes
procurando o dono do cão,
mas não encontrando ninguém interessado, decidiu:
não posso deixar esta criatura de Deus sem amparo,
então o levou consigo,
e, por vários dias, cuidou das feridas,
colocou na própria cama
e dividiu o pouco alimento que tinha...

Quando o animal ficou curado,
o homem o colocou sobre
o carrinho de conduzir papeis,
junto à uma faixa:
este animal não me pertence
e eu gostaria de devolver
ao dono de direito...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

OS JOGOS SÃO PROIBIDOS

Outro dia sai de casa
e andei procurando,
pela cidade inteira,
um joguinho para brincar.

Porém, este velho não sabia
que agora, os jogos estão
na clandestinidade.

O jogo do carteado é  proibido
o jogo do osso, vetado
o jogo do bingo dá cadeia
e o jogo do bicho... bem, o jogo do bicho...

Até me confidenciaram
que  no próximo governo,
virá uma cruzada moralizante
proibindo jogos infantis
tais como: jogo da amarelinha,
jogo da bola de gude, o bobinho, brincadeira de roda...
pois segundo os sábios gestores da ideia
"é de pequenino que se torce o pepino"

À noite daquele dia,
cansado de bater pernas,
chegando em casa,
liguei a tv  para esquecer minhas dores reumáticas,
mas, de repente, incrédulo, assisti a uma chamada, mais ou menos assim:
"O Governo convida a população, de modo geral,
a apostar nos jogos das casas lotéricas.
Os jogos sociais da Caixa Federal estão ao alcance de qualquer bolsa:
a mega-sena, a sena, a dupla-sena, a quina, a trina, a trena,
o jogo do sério, o jogo do sono, o jogo da cabra-cega,
os bilhetes completos, os bilhetes amassados, as raspadinhas, as cartelas no escuro...
E você aí, parado na frente da tv, tá esperando o quê, que não vai correndo
fazer sua fézinha?"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O JOGO

Ontem à noite, durante a contagem dos votos,
eu apaguei em frente a tv.
Mais tarde, enquanto dormia
uma parcela da minha consciência
revoltou-se contra o resto do corpo:
cobrava minha desatenção
diante da importância do momento.
Nesta situação desconfortável,
perante o conflito interno,
era como se eu tivesse duas cabeças
puxando para lados opostos.

Acho que tive um sono horrível
pois acordei de cara amassada,
com olheiras profundas,
garganta seca e coluna ardida.
Cheguei a pensar que houvesse
acontecido uma catástrofe
na ordem geral das coisas,
mas quando eu abri a porta da rua
e recebi os primeiros raios de sol no rosto
recuperei um pouco de tranquilidade,
pois me dei conta de que indendentemente
de qualquer resultado no tabuleiro de xadrez, do jogo jogado,
o mundo continua girando como tem feito desde o dia da criação.