quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O SALARIO NOSSO DE CADA DIA

Sabemos que os salários
dos trabalhadores no Brasil
não são os melhores do mundo
aliás, muito antes pelo contrário.

Queremos a paga
justa e necessária
a cada categoria
de tal modo que a balança não penda,
sobremaneira, para nenhum lado.

Difícil saber
se o patrão pode pagar o justo
porque o trabalhador conhece
de quanto necessita.

Os críticos econômicos afirmam
que o salário da massa trabalhadora
está atrelado às leis de mercado
da economia globalizada,
e, que no fundo, depende do binomio
oferta e procura.

Houve um tempo
em que os candidatos à presidência da república
prometiam nas campanhas eleitoreiras
uma majoração substancial
no piso do salario mínimo,
entretanto, depois de eleitos
esqueciam das promessas.

Os deputados, senadores e vereadores
já não debatem mais sobre essa tema,
hoje, legislam em causa própria,
senão vejamos o presente de natal
que os deputados federais se deram
na sessão mais tranquila da câmara:
a aprovação inconteste de 66 por cento
sobre próprios salários.

Os deputados estaduais gauchos
para não ficarem fora de moda
numa sessão de poucos minutos
aprovaram 70 por cento
no salário da bancada..

Depois desses canetaços
não é de se duvidar
que os distintos vereadores
das nossas cidades
venham a retirar das suas cartolas
cem por cento de aumento
em prol da classe.

Eta politicazinha...

sábado, 25 de dezembro de 2010

Era dia de Natal
de céu azul,
brisa suave
e o espírito fraterno
se esparramando no ar.

Até o trânsito
tão caótico
nos outros dias,
deslizava calmo
pela cidade tranquila.

O ônibus linha Xis 3
fazia seu intinerário
de maneira diversa
da rotina habitual,
pois motorista e cobrador
vestidos de papai Noel
distribuiam balas aos usuários.

De repente, entrou no coletivo,
um passageiro embriagado
cantando com a língua enrolada:
É Natal, Cristo ilumine os homens!

No inicio, o canto do bêbado
foi recebido com aplausos;
todos acharam engraçado,
mas à medida que o alcólatra
repetia o refrão,
a assistência foi se chateando...

O veículo foi andando,
os passageiros irritados,
xingam:
gambá, desce, cai fora!
Mas o homem insistia,
É Natal, Cristo ilumine os homens!

O ônibus seguia seu percurso
e o bêbado prosseguia com a mesma cantilena:
É Natal...

Então, o cobrador enervou-se
e jogou o etílico na calçada.
Todos passageiros gritaram
Motorista, não pára essa droga,
deixa o homem curtir o porre..

E o bêbado esbodegado,
com o corpo retorcido no chão,
gemia e tentava cantar:
Ai... é Natal, ai, ai... Cristo...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

NATAL

Li em algum lugar:
o evento do Natal
mexe com tanta coisa
e por consequência,
algumas pessoas se trasnformam,
outras permanecem tal como são.

Não sou Psicólogo
ou estudioso da Psique
nem moralista.
Sou apenas um curioso
que teve conhecimento
da postura de três indivíduos
num determinado Natal.

Aqueles homens nasceram
na mesma rua,
estudaram nos mesmos colégios
e trabalhavam na mesma empresa.

Eles tinham codinomes
que indentifica, em tese,
o jeito de ser de cada um.

O mais falante, o "Feliz"
preparou uma bela ceia
com muita comida
e muita bebida
e convidou muita gente.
A festa foi brilhante.
Quando o Senhor Tempo lhe perguntou,
porque fizera aquilo,
ele respondeu: Senhor, é Natal!

O mais contido, o "Excêntrico"
vestiu-se de branco,
leu toda a Bíblia,
jejuou a semana inteira
e na noite de Natal, se isolou
numa gruta.
Quando o Senhor do Tempo
lhe perguntou porque fizera aquilo,
ele disse:Senhor, é o nascimento de Jesus!

O terceiro, o "Distraido"
separou parte do salario
de cada mês do ano
e mais a metade
do décimo terceiro,
e comprou alimentos
e algumas roupas,
e na noite de 24 de dezembro,
saiu a distribuir
com os carentes,
que habitavam sob pontes e viadutos.
Então veio o Senhor do Tempo e lhe perguntou:
filho porque não ficaste comemorando o Natal
com os teus amigos?
O homem respondeu, Senhor, sinto que o Natal está no meu coração!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

PSICODÉLICO

Outro dia, lembrei-me daquele cara
embrigando-se nas águas
de Joplin, Hendrix, Morrison...
sonhando e bebendo
Baudelaire, Hesse e Pessoa,
colhendo pelo caminho
os cogumelos de Castaneda...

Ainda me lembro que ele recitava
o verso de um cantor de época:
"Não vim aqui para ser feliz"
então, explicava-me:
nascera para "curtir todas"
estar na "crista da onda"
Dizia-me que viver
não significava, apenas, estar presente
no intervalo delimitado
entre o nascimento e a morte.

Hoje fiquei sabendo
que há muitos anos, ele partiu.
Lamentei num primeiro instante
a brevidade daquela existência.
Depois absorvi o choque
e fiquei pensando no paradigma filosófico
que o meu amigo adotara
o que me levou a questionar
o meu modo de vida
tão comedido, regrado, insosso
e até pensei na "Carolina" do Chico Buarque
e a angústia falou ao meu coração:
"A vida passa lá fora".

sábado, 11 de dezembro de 2010

O TIRO NO PÉ

Nosso Imperador
acordou assustado,
sob um pesadelo,
dentro da noite.

Ele ficou se perguntando
em meio à angústia:
Senhora Providência,
por que isso agora?
Fosse no tempo das turbulências,
va lá!
Naquela época da boataria,
quando a imprensa mirava,
com artilharia pesada,
minha cabeça de para-raios,
eu passei incólume;
mas hoje quando já antegozava
a tranquilidade proveniente
do dever cumprindo;
no momento em que sou
unanimidade nacional,
às vésperas de passar o bastão
à minha herdeira,
os urubus descem sobre o meu sono.

Meu Deus,
por que eu sancionei
aquele projeto da saúde
prejudicial à minha pele
e à epiderme dos meus comparsas?

Meu pai de santo,
onde é que eu estava com a cabeça
quando engoli aquela História da Carochinha:
Lei 999999 - "Politicos ou ex, de cargos executivos, ficam obrigados
a usar somente o Sistema Unico de Saude, ficando vedado à casta
qualquer outra modalidade de tratamento".

Meu Anjo da Guarda,
como vou me virar,
no caso de doença
tendo que usar
aquela porcaria de Sus?

Por que, eu, tolo velho,
aprovei aquela draga?
Os velhacos do Congresso
me ingrupiram,
bolaram esse projento
pensando que eu não o aprovaria,
então, eu como bode expiatório
perderia o respaldo do povo,
conquistado nesses anos todos,
no entanto, eu não embarquei na canoa furada,
mas dei um tiro no meu próprio pé!

Depois de tantas conjecturas,
o homem tentou dormir novamente,
mas não conseguiu.
Então, chamou a vassalagem e ordenou:
"Suas antas, juntem tudo que puderem
e preparem as minhas malas,
porque eu vou acabar com esta palhaçada agora mesmo:
vou picar a mula!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A FLOR

Eu amo as flores
por sua pureza e verdade
e pelo encantamento natural
que provoca no espírito humano.

Já tive predileções
por esta ou aquela cor,
por este ou aquele aroma,
mas sempre apreciei a graça
característica de toda espécie.

Mas um dia, eu encontrei
a rainha das flores,
aquela que chamo musa;
flor de brilho especial,
que sintetiza a essência
de todas as flores.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O PAÍS DOS HOMENS TRANQUILOS

A vocês, meus amigos
que falaram tantas vezes:
não suportamos mais a vida deste país,
queremos ir embora para um lugar melhor,
eu pergunto, o que fizeram ou o que podem fazer
a fim de melhorar a conjuntura geral.

Pois é, eu sei, já tentararm isso
e ficaram com a mesma sensação
de um jogador de bilhar, à mesa de jogo,
diante de uma sinuca de bico.

A notícia de que existe
um mundo ideal,
trás-nos o conforto equivalente
à duração de um relâmpago,
porque ainda não temos acesso
a esse paraíso, além das utopias:
o país dos homens tranquilos.

No país dos homens tranquilos
nãos existem tribunais
nem prisões
nem policiais
e a lei, é uma mera formalidade,
pois praticamente inexistem
demandas.
No país dos homens tranquilos,
as palavras governo, poder e autoridade
ficaram esquecidas no léxico.
No país dos homens tranquilos
não existe vaidade, inveja, cobiça
e a consciência é o parâmetro
das relações interpessoais.

Agora, já ouço vossas vozes:
iremos para o país dos homens tranquilos,
porém, preciso lhes falar de um detalhe,
e diz o adágio: Deus mora nos detalhes;
ainda não estamos aptos à conexão
com o país dos homens tranquilos;
pois não basta apenas sair do país dos homens renegados,
teremos de passar primeiro pelo país dos homens exaltados,
cruzar pelo país dos homens eufóricos,
atravessar o deserto do país dos homens afoitos
para, finalmente, desembarcar no país dos homens tranquilos...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

GUERRA CIVIL

Eu era criança
e fiquei chocado
quando soube
que gerra civil
significava matança
entre irmaos
de um mesmo país.

Foi quando me disseram:
menino, fique tranquilo;
jamais vai acontecer
guerra civil aqui
por que a nossa gente
é ordeira, pacífica e cristã.

Mas em Mil Novecentos e Sessenta e Um
durante a capanha da Legalidade,
fiquei sobressaltado
quando as forças reacionárias
tentaram impedir a posse legal
de João Goulart à presidência da república,
mas para o bem da nação, naquele momento,
o evento teve um final feliz.

Em Mil Novecentos e Sessenta e Quatro,
senti muito medo,
ante a possibilidade de guerra,
porém o presidente foi embora,
evitou o choque
e não houve derramamento de sangue.

Em seguida veio a noite dos generais,
as torturas cruéis e vidas ceifadas
pela guerra civil silenciosa;
a imprensa amordaçada não podia falar
dos crimes daqui
Os censores nas redações dos jornais
controlavam quase tudo
e permitiam apenas, as noticias das guerras lá de fora...

O tempo passou e os generais retornaram aos quartéis
e a gente pensou que as asas da liberdade
voltariam para ficar, para sempre,
sobre as nossas cabeças,
mas parafraseando a letra do samba do Paulinho da Viola,
liberdade, foi um sonho que passou em nossas vidas...

Se nos anos sessenta e setenta
o sagrado direito de ir e vir
nos foi confiscado, muitas vezes,
pelas arráias miúdas do sistema,
hoje, trancados em nossas casas
somos prisioneiros do medo.
A via pública foi tomada
por indivíduos intinerantes
à margem da lei.
Estamos sob à guerra civil.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eu me lembro das campanhas de Natal
de várias décadas passadas
quando a tv ainda não possuia
o poder de penetração de agora
As propagandas eram lançadas no rádio,
maior veículo de comunicação daquela época.

Apesar do apelo comercial
a coisa era conduzida,
aos olhos de hoje,
de forma meio inocente.
Se a gente voltasse a ouvir
os jingles daquele tempo, pensaríamos:
como éramos ingênuos!

Como dizem agora;
a fila andou
e quem parou no tempo,
perdeu o bonde da história.
Tudo se transformou,
entretanto, algumas evoluções
são apenas aparentes.
Se houve um ganho, "entre aspas",
na qualidade de vida,
perdemos na condição moral.

Na primeira década do terceiro milênio,
às portas de mais um Natal,
somos torpedeados
pelo bombardeio mercantilista
através da tv, da internet
e de outros canais poluidos,
mas nosso cérebro, dependente
do consumismo desenfreado,
perdeu o controle da situação,
e o envangelho da moda prega
que a felicidade está ao alcance
de qualquer cartão de crédito.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

UM CIGARRO DE HORA EM HORA

Naquela época
em que eu era
dependente do tabaco
sentia a engrenagem do tempo
mover-se de forma
seccionada.
O dia e a noite
eram cortados em fatias
específicas, segmentadas;
esses períodos estanques
eram delimitados
pelos cigarros consumidos.
O gosto acre do fumo
trazia-me preso
ao sistema preconcebido
por mim mesmo, dependente
de uma idéia introjetada
a qual me fizera
escravo de um delírio.

Agora o tempo
voltou a ser um bloco compactado
sem limites, divisões ou sobressaltos,
com pouca coisa definida ou automatizada
e as operações necessárias
à manutenção anímica
são administradas aleatoriamente
em consonância com o estado de espírito.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

RIO OU CHORO?

Passei a minha juventude
ouvindo hinos patrióticos;
músicas encomendadas pelo governo
com o fito de gerar no ouvinte
aplausos para o "status quo"
daquele momento.

Depois o sistema ruiu,
vieram outros tempos,
a fila andou
e o avanço em diversas áreas
nas últimas décadas
são feitos incontestáveis.

Os fatos estão ai;
a propaganda oficial
nos lembra a toda a hora:
o governo tem quase cem por cento
de aprovação popular
e o povo readquiriu
a alegria verde-amarela.

Eu que já fui cético
em relação ao nosso progresso,
hoje dou mão à palmatória.

Agora, há pouco saiu
o relatório do IDH -
Índice de Desenvolvimento Humano-
Eu fiquei deslumbrado com o nosso avanço.
Pasmem, senhoras e senhores,
ficamos no 76º lugar no cômputo geral
e na America Latina ficamos atrás apenas
da Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Barbados,
Panamá, Bahamas, Trinindad e Tobato...
Olha gente, não estou rindo
porque o assunto é sério...
Dá vontade de bater no peito
e gritar para o mundo ouvir:
Tenho orgulho de ser brasileiro!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O FIM ANTES DO FIM

O homem antigo vivia
uma vida maior
numa curta trajetória de tempo.
O homem atual vive menos
numa vida de longo tempo.

O homem antigo desconhecia
o significado do verbo viver,
no entanto vivia a hora cheia.

O homem moderno atropelou o tempo
e logo pediu mais tempo,
porque o tempo que ele mal administrava
parecia-lhe tão pouco.

O homem pós-moderno
tem pressa
sôfrego, abomina o jargão
"dar tempo ao tempo"
impaciente, pula o "meio"
ansioso, busca logo o "fim".

O homem de agora
menospreza o meio termo.
O homem do tempo novo
vive com o pensamento fixo
na fruição da substância orgástica.

O nosso projeto de vida
está centrado no fim:
o fim da tarde,
o fim da semana,
o fim do mês,
o fim do ano,
o fim da novela,
o epílogo do livro,
o ápice na cama...
mas apesar de tudo,
tememos o "fim do fim"
tanto que se tivéssemos poder de barganha,
diante da nossa hora derradeira,
negociaríamos com o juíz do tempo
e pediríamos um tempo complementar...
uma prorrogação de tempo...
um bônus...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

HOJE EU LEMBREI DE FERNANDO PESSOA

Depois de muito tempo
trancado no meu quarto,
procurando nos compêndios
a chave de elucidação
dos enigmas que inquietam
a nós, pobres humanos,
lancei os olhos para a rua
através de uma fresta na parede
e avistei um jumento,
abstraido do mundo,
pastando com naturalidade.

Naquele instante
fiquei pensando:
nas árvores que crescem,
alimentam outros seres,
purificam o ar do planeta
e não perguntam por quê?
Nos pássaros que embelezam a natureza,
alegram o espírito humano
e não possuem consciêcia disso.
Nos regatos que desaguam nos rios
e estes desembocam nos mares;
trabalho que fazem
desde o começo das eras
à margem dos sistemas filosóficos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CADÊ O POEMA?

Já não sei
dos cigarros não fumados
- sou ex-fumante -,
dos cafés bebidos
e do papel amarrotado
à espera do poema
oculto sob as brumas do ser.

Sou pescador
de caniço entre os dedos
procurando fisgar os versos
que possam cruzar
ao alcance da minha intuição.

Na pesca temporã
não encontro
meus peixes favoritos;
dourados, por exemplo.
Ah, essa minha falta de humildade
que menospreza as arraias miúdas.
Às vezes, remungo: o rio não está prá peixe!

Mas é necessário ser paciente
e compreender a entressafra,
aceitar o repouso da terra
e perceber o momento expontâneo
em que o grão rasga o solo:
o poema no tempo exato.

sábado, 6 de novembro de 2010

A FEIRA DO LIVRO

Sabe, aqueles dias
em que a gente desperta programado
para realizar algo preconcebido
entretanto a cabeça não lembra da tarefa
mas o espírito fica enviando
mensagens codificadas para o cérebro.

Isso aconteceu comigo
na sexta-feira da semana passada
quando acordei com uma sensação estranha
e não demorou muito
veio-me a impressão de ouvir
uma vozinha no fundo do meu ouvido:
Vê se não esquece do compromisso!

Horas mais tarde,
sentado à mesa de trabaho,
distraído entre carimbos e papéis,
fiquei com o sentimento de ter escutado
no meio da conversa cruzada
entre as mesas dos colegas, aquele lembrete:
Não esquece do compromisso.

Às duas horas da tarde
senti fome e pensei em almoçar,
mas a voz voltou:
esquece um pouco do estômago,
o pão do espírito é mais importante!

Atordoado, sai andando pela rua
como se estivesse num estado alterado de consciência
ou feito um autômato bêbado,
assim cheguei à Praça de Alfândega
no início do discurso de abertura
da Quinquagésima Sexta Feira
do Livro de Porto Alegre.

Após a abertura da festa
fiquei circulando pelos stands,
procurando algum amigo
e lendo as capas dos livros.

Depois de algumas horas
minhas pernas pediram descanso
então, adormeci sentando num banco
mas no meio da sonolência
foi rodado um filme dentro de mim
e na fita em preto e branco
vi-me visitando esta feira no passado
e recebendo autógrafos dos meus ídolos,
de alguns deles que já partiram...
Senti novamente o êxtase
da primeira vez em que entrei
aqui no templo dos livros.
Revivi o clima daquele tempo
quando os estands eram chamados de barracas
e a cidade ainda tinha aquele ar de provincia...
Naquela época, eu comprava algum livro
começava a leitura aqui mesmo, nestes bancos
e as flores dos jacarandás
caiam sobre as páginas abertas;
depois, algumas delas secavam entre as folhas
e hoje essas flores desidratadas
são lembranças, saudades, relíquias...

De repente despertei do sono
com o ruido da sineta do Xerife Julio La Porta
Estava na hora do fechamento da Feira
naquela noite,
mas a Festa dos livros estava apenas começando...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

SOCIEDADE BRAZUCA

Sabemos que as ordens iniciáticas existem
há muito tempo,
portanto, quase ninguém de conhecimento mediano
ignora a existência das sociedades secretas,
entre elas, a Maçonaria, Os Templarios, Os Illuminati...
Mas, o que muita gente sabe e não divulga
é a existência da sociedade secreta "Brazuca"
com sede no Distrito Federal
e cuja eficiência é testada
após as eleições presidenciais
com o preenchimento dos cargos
de primeiro, segundo e terceiro escalões...
E tais eventos nem sempre ocorrem
de maneira harmônica
como converia a clube fechado,
onde, teoricamente, seria norma
o rigor do Estatuto...
Mas como temos dito tantas vezes:
A perfeição não é deste mundo,
e este país... Ah, este país...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

COW PARADE

A Cow Parade,
essa arte criada pelo suiço Pascal Knapp,
que depois percorreria o mundo,
chegou aqui.

Durante o mês de outubro
os objetos estiveram expostos
em diversos lugares de Porto Alegre,
arejando a cidade.

O evento causou
belos momentos de euforia,
as crianças, então, adoraram as vaquinhas
como se elas fossem reais.
Teve uma menina que chorou
porque não conseguiu tirar leite...
Coitada dessa criança, que nunca
viu uma vaca de verdade,
assim, tete-a-tete.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

INDIOSINCRASIAS

Felizes, aqueles que vivem
nas aldeias, nos povoados,
nas cidadezinhas perdidas no mapa,
nos pequenos lugarejos
distantes do mundo.

Nesses pequenos paraisos,
como numa colmeia,
vive o indivíduo solidário,
o homem natural
integrado á comunidade.

Em contrapartida,
nos grandes centros,
o homem burocrático
foi engolido
pela solidão profunda,
intrínseca à multidão.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

AS ANDORINHAS

Quando eu era criança
esperava na minha janela,
antes da chuva,
a passagem das andorinhas.
De repente o céu ficava cinzento,
o vento soprava mais forte, vindo do sul
e as andorinhas revoavam na direção da praia,
eu antegozava os primeiros pingos de chuva.
Era questão de tempo e a água descia.
E eu de alma lavada, na minha janela,
esquecia-me do mundo.

Outras vezes, nas manhãs ensolaradas,
as andorinhas faziam o voo de ensaio da chuva
Então, a gente sabia,
que naquele dia iria chover
e mesmo que a metereologia afirmasse o contrário,
sempre acabava chovendo.

Hoje, descendo a rua
da ladeira da vida
ao ouvir as previsões
dos institutos climáticos,
que determinada frente fria
trará chuva,
eu escorado em outra janela
e olhando para o céu,
lembro do passado
e falo com a criança que fui um dia:
"São as andorinhas que trazem chuva!"

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ATÉ QUANDO?

Ontem, lemos nos jornais
que três pessoas morreram
na cidade do Rio de Janeiro
enquanto aguardavam leito
num hospital daquela cidade.

Isso acontece
quase todo o dia
em algum hospital
deste país.
E o pior de tudo:
estamos ficando insensíveis
ante à banalização da desgraça.

Sabemos que somos mortais;
também sabemos da nossa responsabilidade
pela saúde do corpo
e que existe uma constituição
que prega proteção à vida;
mas, no entanto parece
que vivemos numa aldeia
afastada da civilização,
à mercê da fatalidade.

Nosso país evoluiu
em muitas áreas
entretanto nem tudo andou
a par e passo,
sobretudo porque as autoridades
não cuidam
daquilo que deve ser
a preocupação básica
de todo governo responsável.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA DE OUTUBRO

Vinte e nove  de outubro,
sexta feira à tarde,
na Praça da Alfândega,
tenho um encontro marcado
com uma jovem cinquentenária.
Essa senhora vive no meu coração
desde o meu tempo de menino
Apesar do ótimo relacionamento
 existente na nossa relação
estou ficando ansioso
à medida que a data se aproxima.
Acho que no fundo, é um pouco de timidez
que sinto ao expor minha paixão aos olhos do mundo.
Diz-se:
para o amor não há idade,
para o coração não existe distância
e para o amante o tempo não passa.
Assim os anos se sucedem,
mas a minha amada rejuvenece,
então, quem não conhece sua história
nem imagina que ela nasceu
lá na década de cinquenta.
Bem, vou ficando por aqui,
outro dia voltarei ao assunto.
Hoje, com emoção na voz, te saúdo:
bem-vinda, Quinquagésima  Sexta Feira do Livro de Porto Alegre.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O pequeno cão
com as patinhas quebradas
foi jogado na rua,
mas os samaritanos
estavam míopes.

Muita gente
passou por ali
mas, todos, ocupados,
não tiveram tempo
para o bichinho doente.

Passou o político
maturando projetos,
passou o crente
conectando os anjos,
passou o poeta
falando com as musas,
passou o viciado no jogo do bicho
conjecturando:
eu divido o número do cachorro
pelas patas quebradas
e jogo no "primeiro ao quinto",
mas o pobre animal continuava
atirado à sarjeta...

Por fim passou o catador de papel
exaurido pela labuta insana,
com a mente vazia de qualquer pensamento elevado
e tropeçando sobre os efeitos da aguardente;
juntou o animal, subiu e desceu a rua diversas vezes
procurando o dono do cão,
mas não encontrando ninguém interessado, decidiu:
não posso deixar esta criatura de Deus sem amparo,
então o levou consigo,
e, por vários dias, cuidou das feridas,
colocou na própria cama
e dividiu o pouco alimento que tinha...

Quando o animal ficou curado,
o homem o colocou sobre
o carrinho de conduzir papeis,
junto à uma faixa:
este animal não me pertence
e eu gostaria de devolver
ao dono de direito...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

OS JOGOS SÃO PROIBIDOS

Outro dia sai de casa
e andei procurando,
pela cidade inteira,
um joguinho para brincar.

Porém, este velho não sabia
que agora, os jogos estão
na clandestinidade.

O jogo do carteado é  proibido
o jogo do osso, vetado
o jogo do bingo dá cadeia
e o jogo do bicho... bem, o jogo do bicho...

Até me confidenciaram
que  no próximo governo,
virá uma cruzada moralizante
proibindo jogos infantis
tais como: jogo da amarelinha,
jogo da bola de gude, o bobinho, brincadeira de roda...
pois segundo os sábios gestores da ideia
"é de pequenino que se torce o pepino"

À noite daquele dia,
cansado de bater pernas,
chegando em casa,
liguei a tv  para esquecer minhas dores reumáticas,
mas, de repente, incrédulo, assisti a uma chamada, mais ou menos assim:
"O Governo convida a população, de modo geral,
a apostar nos jogos das casas lotéricas.
Os jogos sociais da Caixa Federal estão ao alcance de qualquer bolsa:
a mega-sena, a sena, a dupla-sena, a quina, a trina, a trena,
o jogo do sério, o jogo do sono, o jogo da cabra-cega,
os bilhetes completos, os bilhetes amassados, as raspadinhas, as cartelas no escuro...
E você aí, parado na frente da tv, tá esperando o quê, que não vai correndo
fazer sua fézinha?"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O JOGO

Ontem à noite, durante a contagem dos votos,
eu apaguei em frente a tv.
Mais tarde, enquanto dormia
uma parcela da minha consciência
revoltou-se contra o resto do corpo:
cobrava minha desatenção
diante da importância do momento.
Nesta situação desconfortável,
perante o conflito interno,
era como se eu tivesse duas cabeças
puxando para lados opostos.

Acho que tive um sono horrível
pois acordei de cara amassada,
com olheiras profundas,
garganta seca e coluna ardida.
Cheguei a pensar que houvesse
acontecido uma catástrofe
na ordem geral das coisas,
mas quando eu abri a porta da rua
e recebi os primeiros raios de sol no rosto
recuperei um pouco de tranquilidade,
pois me dei conta de que indendentemente
de qualquer resultado no tabuleiro de xadrez, do jogo jogado,
o mundo continua girando como tem feito desde o dia da criação.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Meg e Maya

Minha vida mudou
depois que conheci Meg e Maya
Esses seres incríveis preechem
todas as lacunas da minha existência,
e eu não sei o que faria
sem as suas companhias.

O tédio fica do lado de fora
da nossa relação quase perfeita
e jamais passamos pelo túnel
da crise de ciumes doentios
pois dividimos o amor
na medida exata das nossas carências.

Quando saimos a passear
eu levo as meninas no colo
e ao chegarmos no parque
as deixo brincando na grama
No fim da tarde,
ao voltarmos para casa
elas me acompanham, uma de cada lado,
felizes; pulando, brincando, latindo...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MEU VOTO

Quando, por descuido,
perdi meu voto,
um político inescrupuloso
o encontrou e se elegeu com ele.

Injuriado, reclamei na justiça
mas, o Tribunal foi taxativo:
voto achado não é voto roubado
portanto, doravante seja mais cautoloso
com seus pertences.

De outra feita, plantei meu voto
num terreno aparentemente fértil
mas veio a interpérie
e a semente estiolada
não frutificou.

Eu tenho andando ansioso,
nos últimos dias,
à medida que se aproxima
a data do pleito
e a responsabilidade bate
à minha porta.

Mas ontem recebi uma carta do meu voto
a qual resumirei em algumas linhas:
"Meu carrasco, estou fugindo para fora do teu alcance,
cansei de ser escravo do teu desejo.
Tu nunca me consultaste,
sempre me empurraste
para onde bem quiseste,
mas agora chega"

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

PRIMAVERA

Durante o último inverno
eu estive circunspecto,
cerebral e reflexivo;
meditando sobre o livro
de John dos Passos:
"A Juventude Passa".

Mas ontem à tarde
quando eu espairecia
sobre o meu alpendre
aconteceu algo diferente:
eu passei a ouvir
na minha vitrola interior
a sinfonia de Vivaldi.

Eis que de repente
avistei um céu azul
como eu não via há muito tempo,
aspirei aromas de flores silvestres,
ouvi cantos de rouxinóis extintos
e uma dose de nostalgia
penetrou no meu coração:
a primavera estava voltando.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

SONHOS

Muitos poetas famosos já foram contemplados
com sonhos maravilhosos.

Lembro do inglês, Samuel Coligdere, que sonhou
um sonho dentro de outro sonho,
então, numa noite, tocou uma flor no paraíso
e ao acordar a flor estava no leito do poeta.

E, Roberto Carlos, que sonhou
com o quintal do vizinho florido,
e ao sair à porta, depois de acordar
o vizinho estava de mão estendida
lhe oferecendo uma flor.

Entre tantos, ainda tem Raul Seixas
sonhando com a terra parada por um dia.
Imagine um dia inteiro, o mundo isento de maldade.
Que maravilha!

Pois é, mas as pessoas comuns também sonham,
ainda que sonhos não tão edificantes quanto.
Inclusive eu guardo comigo
um sonho adormecido há muito tempo:
Eu sonhei que era um personagem
do dramaturgo Plinio Marcos,
em fuga para a Noruega.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ARAPUCA

No início das eras
o homem primitivo percebeu
que usando apenas a força bruta
não seria capaz de atravessar a planície do tempo.
Então, com um pingo de malícia
inventou a arapuca.

Esse artefato rudimentar
talvez tenha sido responsável pela conservação da espécie,
pois com ele, o homem logrou os animais
através dos séculos.

Depois o artefato foi remasterizado, burilado, guaribado
e hoje o encontramos nas grandes metrópoles, principalmente,
em épocas eleitoreiras.
Dizem os especialistas que as arapucas são infalíveis
quando colocadas estrategicamente
pois criam campos magenéticos,
sucçores de votos por excelência.

Talvez, um dia no futuro,
os votos adquiram anticorpos resistentes
e se transformem em presas difíceis, 
mas até lá...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O COMÍCIO

Ontem, nós ornamentamos a praça,
fechamos as ruas adjacentes,
retiramos os vadios das esquinas
e ficamos esperando a festa.
Vieram os representantes de todos os partidos;
a gente exultava apreciando
os belos discursos pronunciados
por aqueles senhores bem-nascidos,
perfumados e bem vestidos.
Depois veio a imprensa inteira
para credibilizar o evento
e também vieram os músicos,
e executaram as tops da parada,
e foi grande o deleite geral;
nós que ali estávamos,
recitávamos em êxtase:
liberdade, igualdade e fraternidade.
Mas nem tudo é perfeito na terra
e êfemeras, as alegrias deste mundo,
então, eis que de repente surgiu
a turba formada por doentes, mendigos e famintos
e o cheiro da miséria se instalou no ar,
e o medo preencheu todas as lacunas disponíveis,
e como se uma bomba de gás letal
houvesse sido lançada no espaço;
os políticos engomados debandaram,
os músicos populares fugiram,
a mídia toda escafedeu.
Até parecia que o mundo se acabava,
o pânico tomou conta de tudo
e nós estamos correndo até agora.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

SEJAMOS BRASILEIROS!

Meu Deus brasileiro,
hoje é 7 de setembro
neste Pa-tro-pi,
majestoso continente
que vai lá em cima no Yapoque
e desce aqui em baixo no Chui.

Meu Deus Tupiniquim perdoa
teus filhos estúpidos,
que tantas vezes esquecemos
que somos brasileiros
e cometemos tantos crimes bárbaros
e pisoteamos este chão,
queimamos esta  terra,
envenanamos nossos rios,
assassinamos nossos indios,
negamos a educação aos carentes,
esquecemos da sáude do povo,
retiramos  a segurança das ruas...

mas, cinicamente, batendo no peito, gritamos:
somos patriotas!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

João da Silva

João da Silva
roubou o discurso
de um candidato de primeira eleição
e comeu o pão que o Diabo amassou;
em meio às agruras do Presidio Central,
desejou o suicídio, mas , adaptável por
excelência, como todo  homem, João
acabou assimilando o trato da casa.

Quando João obteve a liberdade
viveu o inferno discriminatório.
Na condição de ex-presidiário
lhe faltou o afeto, o emprego, o pão...

Revoltado, João roubou a caneta do Prefeito
e foi preso pela 2ª vez,
e reencontrou  os antigos colegas,
a moradia e um pouco de comida;
mas logo foi solto.

E veio a miséria, a fúria, a  raiva...
Sob o império da fome, com o olhar lacrimejante,
João babava, sonhando com a ração servida na cadeia,
mas entre o delírio e a realidade
se sobrepunha o cansaço, a loucura e a neurose.
Desesperado, numa noite, João juntou as poucas forças
que ainda lhe restavam, invadiu o Presídio
e matou o carcereiro.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Outro dia, quando caminhava
melancolicamente pelo parque,
lembrei-me do mestre Beethoven
e uma melodia divina
entrou-me pelos ouvidos
e por momentos, tudo
transformou-se à minha volta.

Era como se eu houvesse
adormecido neste mundo
e despertado no paraíso,
e aquele estado de leveza
acompanhou-me por algumas horas
daquela tarde límpida
enquanto sons maviosos
de passáros raros
anunciavam a primavera
que estava a brotar
no casulo das estações.

Então, esqueci as dores da minha alma
e as mazelas do cotidiano,
e com o pensamento dirigido para o alto
agradeci ao nosso pai
a concessão de momentos sublimes
dipostos a nós, pecadores,
mas  raramente os aurimos
porque  nos afastamos
das coisas simples da vida.

domingo, 1 de agosto de 2010

TAPES

Tapes, teipes e tipos,
a cidade, a terra, os indios,
a lagoa, a areia e o campo.
O vento vinha da praia
abrir nossas cortinas,
parece que vejo as gaivotas
trazendo o cheio da infancia.

A lagoa, o trapiche, o espaço.
O primeiro beijo na areia.
O ontem, o retorno, a quimera;
volume de água antiga,
mirando a praia no tempo,
um sonho velho, viajante,
barco encalhado no sal
da lágrima seca ao vento

A chuva da manhã, o arco-iris,
o cavalo, o passeio e a brisa.
O cheiro do malmequer sobre a relva
e o gosto do fruto maduro.
O perfume dos eucaliptos vestindo a campina,
o aroma de mel no corpo,
na tarde suave de junho,
o sol transpondo a curva,
que traz a noite no bojo
e os faróis dos vaga-lumes.

Meu pai trazia à tarde
o cheiro forte do bagre
pescado a linha no "quarenta",
lembrança, efeito bumerange
páginha virada...faz tempo!
Tempo que a memória alcança...
o desejo queimando o corpo
na noite cálida de abril,
na rua treze de maio:
a carne vendida a quilo
na balança do prostíbulo.

A areia quente da praia
beijando a pele bronzeada
da sereia, distante, à toa
viajando além do horizonte
no outro lado do mundo
onde o céu corta as águas,
a namorada da lagoa sonhando
com o príncipe das Arábias.

Eu quero andar à esmo,
atar as pontas do tempo,
rever o meu Pessegueiro
derramando flor no espaço,
colher o figo maduro
e degustá-lo sem pressa
no quintal da minha vida.
Eu quero marcar um gol
no campo do  índio Ubirajara
no final do segundo tempo,
eu quero dourar o sonho
na sombra daquele umbú
antes que o jogo acabe.

Eu quero ir na prainha
logo abaixo da ponte,
beber no côncavo das mãos
a água azul da fonte,
na fonte  que já não existe
Quero levar meu corpo na cachoeira,
banhar a alma à noite...
Ah!... Devaneios de um homem triste.

Homens, pobres mortais
trazemos dentro de nós
um cordão magnético
atado às primeiras lembranças
por isso falo alto o teu nome
e mesmo carente de talento
tento pintar o teu rosto,
e, se algum dia por equívoco
me extraviar na poeira mundana,
mas qual filho pródigo,
à casa retornarei,
através de um poema.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A ILUSÃO

Nós que somos filhos da sabedoria cósmica
hoje inseridos numa gaveta do universo
esquecemos da nossa condição transitória
iludimo-nos com projetos perenes
mesmo que no fundo saibamos
que nada perdura.

E,no entanto, o espírito é eterno
Eternidade incompreensível
aos nossos sentidos embotados
pelo desgaste da labuta inglória:
correr desesperado, de um lugar a outro,
em busca de nada.

domingo, 11 de julho de 2010

Quando dei por mim
estava dentro do palco
de um teatro primitivo
representando a peça vida.

Percebi naquele instante
que somos todos canastrões
dentre milhões de personagens
que passaram por aqui.

É uma obra tão antiga,
qual a idade do mundo,
no entanto se renova
toda vez que vai ao palco.

Ator e platéia se confundem
à medida que a fantasia
escapa do controle do artista
e as vezes a crítica comenta:
a vida imita a arte.

terça-feira, 6 de julho de 2010

FALÁCIA

Eles dizem:
queremos o bem comum,
vamos acabar com a fome do povo.
Conduziremos o rebanho
pela esquerda, pela direita,
para frente... para trás,
se for necessário.

Ah, falastrões,
que tiram partido da retórica,
da lábia e da cadeira empoeirada no Congresso.

Esses messeânicos falam de projetos mirabolantes
mas são incapazes de combater a doença primitiva da massa:
 A IGNORÂNCIA.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A CARRUAGEM

A carruagem da ilusão
conduz a humanidade
por caminhos insólitos,
vida a fora,
através do tempo.
Tempo de medidas estreitas
para uma vida inquieta
de andar incessante
pelos dias insípidos
e noites insones.
É a eterna repetição
da odisséia humana;
o medo compelindo o homem
a buscar ininterruptamente,
uma pista, um signo, uma estrela,
a chave de um porto seguro.
Por fim ao antever
o ponto de equilibrio
nas aguas do rio da vida
uma voz se faz ouvir:
é hora e embarcar
no carro da partida. 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MISÉRIA

Eu sonhei que sorria sonhando
e sorrindo fui à rua
Era um riso largo
que incomodava os transeuntes,
perturbava o mundo carente de risos,
irritava o homem de terno cinza
e rosto crispado, que falava
feito autômato ao celular.
Mas a alegria foi desaparecendo
à medida que eu me aproximava
do centro da cidade
e deparava-me com a miséria
exposta diante dos meus olhos;
uma miséria diferente
da miséria descrita pelos jornais
e daquela embalada na tv
para a obtenção de pontos no Ibope.
Era a miséria crua estampada
no rosto dos analfabetos,
na boca dos famintos,
na fisionomia dos párias,
no corpo das protitutas,
nos olhos dos assassinos,
no espírito do homem,
nas artérias do tempo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A NATUREZA

Eu amo
os riachos, os regatos, os arroios,
os rios, os lagos, os mares,
as pedras, as árvores, as flores,
as rochas, os montes, os vales
porque eles traduzem
o rosto da eternidade,
entretanto, não sabem que existem.

eu amo
o céu, a lua, as estrelas,
o vento, a brisa, o pôr do sol
porque eles não recitam
o idioma dos homens
mas falam a linguagem
que o meu coração entende.

eu amo
a natureza, a primavera, o beija-flor
o campo, o malmequer, os girassóis
amo-os porque são verdadeiros;
não pensam, não falam, não mentem
mas sabem a dança do universo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SÍNTESE

A sabedoria oculta
na boca dos incautos
irrita os tímpanos
inabituados à música
das marés.

Os dogmas eternos
exprimem a substância
do minuto espremido
pela mão do relogoeiro,
cansado, no caminho das pedras.

Neste átimo,
no vazio cósmico
o sempre e o nunca;
síntese das eras,
se encontram
aqui e agora

quarta-feira, 26 de maio de 2010

VIAJANTE

Hoje navegarei no vento
montado em Rocinante,
atravessarei os mares do Norte
dentro da baleia Jonica,
subirei à estrela dalva
pela escada de Jacó.

Antecipando-me aos "Sem-Terras"
invadirei a Távola Redonda,
cultivarei o campo de trigo
na cratera branca da lua,
cortarei a semente do mal
manejando a espada de Arthur.

Quando o corpo estiver exausto
descansarei na tenda de Abrãao,
energizarei meus pés
na relva de Witman,
saciarei a sede na fonte
de Fenando Pessoa.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

MONA LISA

Mona Lisa,
por que não desces da parede?
por acaso te imaginas tela de museu?
Tua persistência me intriga
Estática, não te moves.

Sei teu nome
e sei que te furtas à rua
também pudera,
tão nobre!

mona Lisa
por que não falas?
perdeste a língua?
Minhas palavras te aborrecem?
Se me renegas, então por que me fitas,
enquanto me afasto?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

OS OLHOS DO MUNDO

Mira tua face
antes que seque
as lágrimas suspensas
nos olhos do mundo.

Ouvistes dizer:
o tempo tudo apaga
mas devias saber
que o pensamento
inventa histórias
e, grosso modo,
tu és o inventor.

Tu valorizas, sobremaneira,
o objeto,
e, por consequencia,
o mundo,
entretanto, ignoras
o que é o mundo.

Te imginas senhor
das coisas
que te cercam,
o rei de um feudo
Não percebes
que és o abismo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

     Esse calor que faz nos últimos dias, me deixa sonolenta, preguiçosa, de miolo mole; não consigo pensar direito nem me concentrar em  nada.
     Daqui a pouco, meu marido vai chegar, é quando eu melhoro e fico um pouquinho animada. A gente conversa durante o jantar, depois discute o desempenho deste ou daquele ator na novela; fico com a quase impressão de que as coisas vão funcionar com naturalidade, mas quando se aproxima das onze horas, eu começo a ficar preocupada. No momento em que o Roberto vai para o banho, eu estou tensa. Quando ele volta e fala que agora é a minha vez de banhar o corpo; já sei que ele vai querer coisa, então, fico desesperada, mas como não tem outro jeito, pego calcinha, camisola, talquinho,  etc,  e enfrento a água. Demoro o máximo que posso em baixo do chuveiro e me concentro no corpo dos homens que vejo pela rua. Procuro ser mais seletiva possível, até me definir por alguém que eu haja visto durante o dia. Depois de um tempão, saio do banho com o corpo molhado para deitar com o Roberto, imaginando que ele é Anselmo Duarte e eu Leila Diniz.
     Roberto, irritado com a minha demora, fala: pensei que havias dormido no banheiro, e, além do mais, vens nua, quando sabes que eu gosto de assistir a tua entrada no nosso leito, vestindo aquelas roupinhas que caem tão bem sobre a tua pele dourada!
     Aquelas palavras, ditas à meia-luz, produzem um frouxura na minha carne, uma labaredazinha acende o meu ventre, e eu me jogo sobre o "Anselmo" e tomo o iniciativa; mas a pele, o cheiro e as coisas de Roberto já não provocam a minha libido; estou tão acostumada com ele, que o meu fogo diminuiu muito, entretanto, por uma questão de sobrevivência, tenho que fingir.
     Roberto que nãoé bobo nem nada, diz: acho que terei de trocar de mulher; mas, agora, vou querer uma mais nova, que goste mais da coisa, pois tu ages como funcionário público e me dás um sexo burocrático.

    Enquanto o Roberto dorme, eu fico pensando: quando esse cara tiver a certeza de que o meu tesão por ele acabou, me mandará embora. Ai eu estarei ferrada! O meu corpo deixará de vestir os tecidos da Casa Loro e as langeries da Lyra; adeus às joias da Masson e aos mimos da Scarpini. Será o fim das sessões vespertinas no Cine Cacique, do chá da tarde no Shopping João Pessoa e dos jantares chics aos finais de semanas nos restaurantes da moda. E as férias em Bariloche e Punta del Est, nunca mais.

  
     Sem o suporte do Roberto, terei de voltar ao trabalho, e não será fácil começar tudo outra vez; terei de dar aulas, pelo menos, em dois turnos, para obter uns míseros trocados. Não gosto nem de pensar nas mudanças que ocorrerão na minha vida quando eu sair desta casa, e, o pior, que o fim está próximo.
      Só de pensar no meu provável retorno às origens, sinto náuseas. Quando se nasce na pobreza, tudo bem, morre-se na pobreza sem maiores angústias; entretanto, ir ao paraiso e depois retornar ao purgatório, é outro papo. É duro imaginar-me comprando minhas roupas na Voluntários, almoçando nos bares do Mercado Público, comendo cachorro quente na Praça XV, passeando na Redenção...Dura e quase velha, andarei incógnita pelas ruas da cidade, sem chamar a atenção de ninguém, exceto, de algum pobretão igual a mim...

     Eu fui mesmo uma estúpida por ter feito este casamento (negócio) de  quinze anos, com aquela cláusula terrível: se ao final do presente contrato não houvesse interesse em continuar por parte dele, eu levaria comigo somente a roupa do corpo. Se naquele tempo,  quando eu era jovem e deixava os homens com água na boca, houvesse abandonado o Roberto e ficado com qualquer um daqueles rapazes bonitos , da minha fai ixa etária, não endinheirados como o Roberto, mas futurosos, certamente, hoje eu estaria bem. Mas não! Fui nas pilhas da minha mãe. Ela dizia: Iaria, tu tens que ficar com o Doutor. Ele é o máximo. Para ela, era Deus no céu e o Doutor Roberto na Terra.   

     Acordei sobressaltada. Hoje é o último dia do meu contrato. Vou preparar as malas antes que o advogado do Roberto ligue, quem sabe a própria secretária dele, Clara, poderá ligar para eu desocupar a mansão. Agora, Clara é minha amiga e confidente, mas nem sempre foi assim; há dez anos ela dava expediente extra para o Doutor nas camas do Hotel Everest. Ele pagava bem e para não perder o emprego, ela ia. Depois ela casou, ficou gorda, então o Roberto perdeu o interesse.  

     De repente, o telefone toca mas eu não atenderei. O aparelho não pára de tocar, mas deixarei que toque. Por mim pode continuar tocando por mais uma hora, toda manhã, todo o dia, a semana inteira, o mês inteiro, a vida inteira...






domingo, 18 de abril de 2010

A VELOCIDADE DA RODA DO MUNDO

Hoje, eu acordei pensando
na velocidade do giro
da roda do mundo;
parce que tudo está passando tão rápido
e, entre curioso e assustado, me pergunto:
onde foram parar as coisas de ontem?
Cadê o meu rosto imberbe,
cadê a minha voz suave,
cadê a minha des-canseira?

Cadê as minhas bolas de gude,
cadê as pedras de cinco-marias,
cadê a bola de meia,
cadê os gibis que eu lia,
cadê a Seleta em prosa e verso
e cadê os biscoitos que a minha vó fazia?

Cadê o meu velho pião
cadê o doce de goiaba de mamãe,
cadê a fogueira de São João,
as brincadeiras da escola
e o carrinho de lomba, então?

Cadê as galenas do meu tempo,
cadê as novelas do rádio,
cadê Jota bronquinha
cadê "Até depois de 2001"
do Flavio Alcaraz Gomes,
o maior de todos?
Cadê o staf esportivo da Guaíba
formado pelo Pedro Carneiro Pereira,
o Ruy, o Lauro, o Streck, o Amir, o Lasier,
o Lupi e o Antonio  Augusto?

Cadê o Sergio Joickmann,
cadê "Dois minutos" com Ivete Brandalise,
cadê Fernando Veronesi
e a Música da Guaíba?

cadê o "Bric-a-Brac da Vida",
cadê o "Caderno de Sábado"
do meu Correio do Povo?
Cadê o Diario de Notícias,
a Última Hora, a Folha Esportiva,
a Folha da Tarde, a Revista do Globo,
a Intervalo, a Manchete, a Placar
e o Pasquim?
Cadê, cadê, cadê?...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Hoje, eu acordei pensando
na velocidade do giro
da roda do mundo

domingo, 11 de abril de 2010

PODER E GLÓRIA

Tu que buscavas o poder
por toda a terra
construias teus palácios
nas nuvens.
Pensavas hipnotizar o vento,
aspiravas à glória salomônica.

Tu era Cesar
atravessando o Rubicom,
incorporavas Sócrates
calando Atenas.

Mas, agora, no final da reta,
percebes tua corrida vã.
Vês ali na esquina
a sombra da Dama de preto
Sabes que do outro lado
não poderás cambiar
tuas moedas podres
e compreendes, que tudo é poeira.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A CONSTRUÇÃO

Os grãos de areia
o sono da pedra
e o barro das mãos
moldam a parede;
tecitura concreta
de um projeto abstrato.

No esboço em branco
a tarefa não anda
a argamassa some
no buraco do ralo.

No canteiro da obra,
o pedreiro dorme durante o dia.
À noite, ele disputa com os bichos
um espaço no buraco do bueiro.

domingo, 21 de março de 2010

O CASARÃO

Este é o último casarão
que restou na cidade;
arquivo abalroado de memória,
ressonância de passos repetidos milhões de vezes
pelos velhos corredores.
As paredes internas, são murais pintados de sangue
vertido das histórias de vampiros,
contadas às crianças nas noites de agosto.
As fotografias expostas nos cantos
lembram cenas de um filme em preto e branco:
pequenas e grandes cenas cotidianas;
alegria, dor, nascimento e morte:
o eterno repetir da aventura humana.
No sótão, os arcanjos guardam o pergaminho
da historia das Mil e uma noites.
No quintal, a serpente vigia o fruto proibido
para que Adões e Evas não possam tocá-lo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

À PESSOA

Admiro o guardador de sonhos
que os armazena por gosto
sem medo de parecer louco.

Invejo o homem telúrico
que faz da terra,
extensão do corpo.
..............................................

Não fugirei à sina
de versejador,
catador de palavras
na tarefa inglória
de agarrà-las
aqui, ali, alhures...
e depois, jogá-las
no buraco do tempo.

CABRALINO

Eu, estrangeiro
aqui no trópico
tomei de assalto
a casa de mãe Joana.

Errando o caminho
aportei em Cabrália
Eu, corpo estranho
tornei-me posseiro
do teu corpo.

Meu catecismo
aniquilou tua alma
minha ira sádica
queimou a tua carne.
Cínico, lacrimejei
sobre as cinzas de Galdino.

sábado, 13 de março de 2010

JOGO DOS BONS

João Caetano estava  impaciente naquele dia. Ele queria matar o tempo, fazer alguma coisa para sair do marasmo, mas indeciso, andava de um lado para outro, sem um objetivo definido. Na parte da manhã, as coisas estavam tranquilias, no entanto, depois do almoço, tentou tirar um cochilo, mas  o sono não veio. Depois de dar várias voltas em torno do largo dos Açorianos, ele pega a Borges e vai caminhando em direção à zona sul. No cruzamento com a  Avenida Ipiranga, pára, acende um cigarro, depois continua em frente. Na Padre Cacique , nota que há um movimento de povo uniformizado. Vê gente com a camisa do Grêmio e gente com a camisa do Inter, pensou: tem Grenal. Ele andava tão desligado de futebol! Tão desligado e desinteressado que dizia, algumas vezes: torcer para um time era o mesmo que copular com a vara emprestada...  Mas sem nada para fazer naquela tarde de domingo, resolve dar uma espiada lá dentro. Dirige-se a um dos guichês, compra um bilhete, passa na catraca, adentra no estádio e senta-se junto à torciida colorada. Ele mal senta e é apupado; xingam-no, injuriam a mão e gritam: gremista cacohrro.. Ai ele percebe que veste uma camiseta azul. Os policiais que vigiam as torcidas, retiram-no do redemoinho vermelho e põe-no em meio ao aglomerado azul. Em seguida o jogo começa, mas João Caetano adormece.

Quando João Caetano acorda; vê os jogadores dos dois times sentados no meio do campo, ouvindo instruções dos seus treinadores. Pergunta o que está acontecendo ao companheiro do lado. O cara diz que o jogo terminou empatado no tempo normal e também na prorrogção, foi zero a zero, e, agora o campenato vai ser decidido em cobranças de pênaltis. O juiz escolhe uma das goleiras para as cobranças dos tais pênaltis e ordena o início dos trabalhos. Os boleiros do Grêmio chutaram a gol. Os caras do inter chutaram a gol. A primeira série ficou empatada em 5x5; a 2ª série 5x5; a 3ª série 5x5; a 11ª série 5x5; a 23ª série 4x4; a 91ª 1x1. As cobranças terminavam sempre empatadas. Os jogadores estavam tão cansados que já não conseguiam parar de pé. À meia-noite, o juiz cai desmaiado. O juiz reserva ordena que os torcedores irão decidir o título, eles cobrarão os tiros livres para os seus clubes. Porém, surge um problema, os torcedores não possuem fardamento, nem chuteiras, nem meias adequadas. O impasse foi solucionado pelo Presidente da Federação Gaucha de Futebol, que autorizou os torcedores a cobrarem os pênaltis de qualquer jeito. Para bater na bola valia tênis, sapatos, tamancos, alpargatas, coturnos, galochas, pé engessado, enfim, valia tudo. Era zero hora e trinta e cinco minutos quando os torcedores iniciaram as séries. Às cinco horas da manhã o jogo  continuava empatado. O juiz reserva e os bandeirinhas haviam caído desmaiados. Na rua era uma confusão provocada pelas sirenes das ambulâncias conduzindo os torcedores para os hospitais da cidade, quase todos desmaiados devido a falta de ingestão de líquidos. Agora quem comandava a cobrança dos pênilatis era o vice-presidente da Federação e o baile prosseguia... Não querendo fazer trocadilho, àquela altura do campeonato, já não havia quase ninguém no estádio. De repente, um brigadiano cutuca no ombro de João Caetano e ordena: é a tua vez de bater na peronha. Já não havia mais bola. Vinte e cinco bolas oficiais haviam sido gastas. João Caetano ia chutar uma bola de meia. Quem estava no gol para tentar fazer a defesa era o presidente do Internacional.. João Caetano estufou o peito, enquadrou o corpo, correu para a bola, digo meia, levantou a perna e caiu desmaiado.
   

NÃO FIQUE AÍ PARADO

Eu não fui ao banquete
Eu não tenho convite
Eu não tenho história
Eu não tenho tempo,
No entanto, a vida
não exige passaporte
A porta está aberta
para quem acredita.

quinta-feira, 11 de março de 2010

MEU PONTAL



Eu sorvia o meu chimarrão
à sombra da figueira à tarde...
Eu contemplava a lagoa,
lendo os poemas de Neruda
Pensava nas lacunas do texto
de "Vinte sonetos de amor"
e transmutava-me na poeira
das areias do Pontal
e nas pedras de "Isla Negra"
e em todos os pássaros,
 em todas as flores
à volta da praia
porque era primavera
no meu coração.

São lembranças antigas
brotando das paredes 
de um tempo irreversível
de imagens, cinza e tempo.
São os componentes difusos do sonho
invadindo as defesas orgânicas,
plagiando a estrutura do texto
de "Uma canção desesperada"

terça-feira, 9 de março de 2010

DOM PAULETE, ME PERDOE

Eu sou a linha torta
do poema Reto de Fernando Pessoa
Eu sou o painel de Kafka,
o caos, a neurose, o processo.
Eu sou o Tempo Perdido de Proust,
a memória, o sonho, a lembrança.
Eu sou a Náusea de Sartre,
o Ser, o nada, a angústia.
Eu sou a dor de Nieztch,
a corda atada no abismo.
Eu sou o "Gita" do mago
Eu sou aquele que não sabe. 

segunda-feira, 8 de março de 2010

NAQUELE TEMPO

Naquele tempo
bebia a solidão quase absoluta
inerente à quietude harmônica da natureza.
De permeio, aspirava algo que quebrasse
o veio tedioso da tranquilidade;
talvez uma pedra lançada na calmaria do lago
ou a réstia de vento a debulhar o campo de trigo.

Naquelas manhãs pretéritas
banhava o corpo nas gotas suspensas,
no rosto luminoso da fonte,
navegava nos fluidos das essências sagradas,
integrado à sabedoria da unidade,
 mas quando ousei, num passe de mágica,
agir sobre a face de gaia;
nomeando, adicionando e dividindo,
me perdi nas trilhas bifurcadas do eu.

Acho, que dentre as coisas
que desesperam o homem,
talvez a mais exasperante, seja
absorver o cotidiano embebido de paz,
tanto, que cedo ou tarde,
lá vai ele, criatura inquieta,
à procura  de guerra,
e na falta de inimigos,
destrói a si mesmo.

terça-feira, 2 de março de 2010

DIA DOIS

O meu ser chora
todos os dias dois
de cada mês do ano,
pois foi num dia dois
 que o meu filho partiu.

A saudade é tanta
que as lágrimas brotam
das vertentes da alma
até transbordarem
no rio da lembrança.

Há muitos anos
eu lia Ernesto Sábato,
numa passagem do livro
"Sobre Heróis e Tumbas"
onde ele descrevia a dor
de um pai que perdera o filho,
parado em um parque de Montevidéu.

Hoje revejo mentalmente
aquele homem triste
e percebo a real diferença
entre ficção e realidade
apesar de às vezes,
ambas se confundirem;
entretanto, a dor é terrivel
na carne de quem a sente.

Eu sei que essa saudade
vai me acompanhar
ao longo dos dias
e o futuro a Deus pertence,
o nosso destino está traçado,
mas dele nada sabemos.
O modelo dos homem
 falou um dia:
"até os teus cabelos estão contados"
e "há um tempo para tudo"
mas só o pai sabe o dia e a hora.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O MEDO

Da minha janela,
neste tarde de quase outono,
descortino a rua.
Vejo os passantes
em sua diversidade:
multidão de rostos díspares,
complexidade de sentimentos
quase esmagados
pela noite que se aproxima.

Sinto que o meu medo
se fundo no medo
dos meus semelhantes,
percebo que os meus gestos
misturam-se aos movimentos dos homens,
e, que o meu espanto
junta-se ao assombro dos fracos.

Leio o inconformismo nos rostos cansados,
como se o peso do fardo
fosse algo demasiado às forças individuais
Parecemos itinerantes de um percurso surrealista
imposto à revelia
e, estúpidos, esperamos a barca de Caronte.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

OS PACIFISTAS

Agora, os governantes
das nações evoluidas
são humanistas,
pacifistas
antibelicistas,
e se escandalizam
com a violência
das gerras modernas.
Mas eles varrerão
as guerras inúteis do mapa
e farão uma grande guerra
para acabar com as guerras
(matarão milhões e milhões por uma causa nobre)
Esses pacíficos serão candidatos
ao Premio Nobel da Paz.

O CANTO DE BORGES

 Ouço o verso de Borges
sangrando a alma Argentina
é o grito épico do tango
rasgando a noite em "el pampa".

Ouço o tinir das adagas
nos entreveros de "los gauchos"
é o choro do bandoneon
e a pena deitando sangue
no poema trágico borgueano.

Na noite de vento gelado
um vulto caminha em "la calle"
é o velho poeta sem olhos
aquecendo a alma num sonho

Sonhando pela vida, o poeta
perdeu a vista no espelho
gravou a fogo a imagem
nas curvas do labirinto

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SAUDADE DO MEU FILHO

Eu me lembro de quando ouvia o Roberto
cantando para o filho doente:
As flores do jardim da nossa casa...
E o inverno da saudade desabou...
Então, pensava com os meus botôes:
Meu Deus, que dor pungente na alma de um pai.

Pois é, faz tempo!
Mas o pior é que a vida imitou a arte.
É que no ano passado, o meu filho enfrentou uma longa enfermidade
e acabou morrendo.
Agora eu ouço todos os dias aqueles acordes
que ficaram gravados na minha alma:
AS FLORES DO JARDIM DA NOSSA CASA MORERERAM TODAS
DE SAUDADE DE VOCÊ!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

STELA

Meu nome é Stela;. a idade não gosto de dizer, mas sou jovem. Tenho um metro e setenta e sessenta e dois quilos, acho que bem distribuidos por este corpinho de vida ainda curta.

Meus gostos são praticamente iguais aos gostos das meninas da minha geração. Gosto dos filmes estrelados po Marlon Brando, Marcelo Mastroiani e Alan Dellon e tenho uma puta inveja das atrizes Caterine Deneuve, Jane Fonda e Brigite Bardott, porque elas contracenam com os homens mais charmosos do planeta, e além disso, certamente, entre uma e outra filmagem, devem fazer com aqueles caras, as sacanagens mais gostosas do mundo.

Curto muito as músicas da Joven Guarda, claro que gosto mais dos meninos, sobretuto, do Roberto, do Jerry e do lindinho, o Ronnie Von, por que eu não sou boba nem nada. Aliás, por falar em música, tem uma que é uma "brasa, mora!" É a música do cantor Fábio: Stela; às vezes quando a estou ouvindo, fico com todos os meus pelinhos arrepiados, e penso; ah, essa música foi feita para mim.

Eu falei há pouco, alguns nomes de atores internacionais que eu amo, mas quero deixar claro que também gosto muito de vários dos nossos atores. Gosto mais dos filmes brasileiros, porque neles, muitas vezes, eu me vejo. Quando falo sobre o nosso cinema, dois filmes enchem as minhas medidas: " Os Paqueras" e "Todas as mulheres do Mundo"  O primeiro, eu vi umas dez vezes, e sempre fico encantada com o desempenho do Reginaldo Farias. Acho que só faltou uma coisinha para que a fita fosse melhor: o personagem do Reginaldo tinha que encarnar um cara rico, com muita grana para gastar com toda aquela mulherada; mas, enfim, nem tudo é perfeito.

Já tive vários namorados, mas no momento estou só, em fase de estudo, esperando o momento oportuno para o que der e vier. Dar, ainda não dei, por que no fundo, sempre exigi muito, inclusive, algumas vezes propus aos caras que pretendiam traçar o meu corpinho, um contrato sacramentado em cartório , em que constasse, que se o rapaz me comesse antes do 2º ano de namoro, eu teria de receber a importância em dinheiro, na quantia de..., mas como todos eles eram duros...ainda continuo virgem...

Claro que a minha proposição era uma blefe. O meu objetivo era vislumbrar nos meus pretendentes, um interesse verdadeiro por mim, porque quando existe desejo sincero, isto é, quando um rapaz deseja de verdade uma mulher, ele aguenta no osso uma longa espera.

Acho que os homens que eu conheci, queriam de mim apenas uma coisa: que eu abrisse as pernas  como faria qualquer mulher fácil. Com isso não quero dizer que sou difícil - aliás, um amigo meu, que já tentou me traçar, fala que não existe mulher difícil, mas mulher mal cantada, no entanto, comigo não deu certo as cantigas dele; talvez ela tenha usado o repetório errado-, eu apenas valorizo o meu espaço porque sei que que os guris de hoje, querem nos comer e depois sair dizendo prá todo o mundo, que a gente é assim e assado. No fundo parece que a maioria dos rapazes não está interessada na fruição do prazer que o nosso corpo pode proporcionar, mas em contar vantagens sobres as suas conquistas. Têm também aqueles guris que namoram todas as gurias que conseguem. É um tipo nada seletivo, para quem não importa se a menina é bonita, chique, careta, torta, branca, preta, demodé... Esses meninos querem se mostrar; gostam de beijar, amassar, arretar, enfim, fazer tudo em público; eles precisam ser vistos em atividade. Se eles agarram a gente numa festa, acabam nos comendo de pé, no meio do povo. No entanto, quando ficam à sós com a gente, esses malandros enfiam o rabinho no meio das pedras.

Eu, apesar de jovem e conhecer pouco do mundo, e menos ainda de mim mesma, acho que o homem que um dia vai ganhar o meu coração, será um cara manhoso, cheio de picardia, mas eu por meu turno, não facilitarei as coisas. Imagino que será bonito, assim como um jogo.

Meu príncipe encantado sentirá o meu cheiro de fêmea no ar e me encontrará trêmula e lívida, mas resistirei; não entregarei nada. Conquistarei o meu amado com trejeitos faciais, carregados de sensualidade. Usarei decotes insinuantes que realcarão os meus seios, cobertos por sutiãs negros, em baixo de miniblusas muito brancas, adequadas a minha pureza de corpo e de alma; e na parte de baixo, nada de slaques apertadíssimos, capazes de salientar as reentrâncias, mas saias largas, plissadas, à altura do joelho e meias americanas estilo colegial ingênua, mas usarei perfumes de fragâncias lascivas.

Sei que ele vai me convidar para um daqueles drinks que todo rapaz chique gosta de oferecer à moça que pretende conquistar, e eu aceitarei, fazendo beiçinho, querendo dizer que não devia, mas na hora de beber, molharei apenas a ponta da língua e direi: não estou acostumada a sair com rapazes, pos isso estou sentindo vergonha de estar sentada contigo aqui a esta mesa.

Quando ele pegar a minha mão e a puser na mão dele, eu, discretamente, a retirarei; entretanto, em intervalos regulares de tempo, lançarei olhares de ingenuidade misturados com picardia, prometendo tudo e não cedendo nada. Mais tarde, quando ele quiser tocar o meu corpo, inventarei suspiros, tremores pelo corpo, no entanto, deixarei muito claro que exijo respeito; beijo só no rosto e na testa; nada de beijo de língua, amasso, arreto, aula prática de piano, essas coisas, somente bem mais tarde, mas como preâmbulo para a fornicação; portanto, devagar com o andor, que a carne e fágil e eu não quero me perder e virar moça falada.

Quando eu receber o meu amado na minha casa - ainda moro com os meus pais, nisso sou cafona -, farei tudo para deixá-lo com água na boca, no entanto, apenas me mostrarei. Eu sentarei numa cadeira, ele em outra e ficaremos de frente. Cruzarei e descruzarei as pernas para que ele advinhe a cor da minha calcinha, escondida em baixo da minissaia jeans, ou então usarei shortinhos, desfiados, adentrando nas cavidades. Vez que outra, simularei cãimbras nas coxas, comichão nas espáduas; direi que existe um espírito enconstado no meu corpo; mentirei que à noite sonho que sou Lady Godiva, nua, montada no cavalo branoc. Mas quando o cara estiver com a libido a mil, eu pedirei licença, tomarei um banho, colocarei o vestido mais recatado que possuo, um igual àquele que usei na primeira comunhão e me transfomarei novamente numa menina tímida e acanhada. Essa será a prova dos noves. Se ele não fugir da raia, então, terá grandes chances de ser o meu guerreiro encantado.

Quando eu estiver certa de que o meu pretendente realmente me ama, e ele houver dito que já não aguenta mais tanto desejo reprimido, então pedirei que ele afague os meus cabelos e acaricie o meu rosto. Se nesses momentos, ao olfatar as mãos dele, eu sentir o cheiro de centenas bronhas esfareladas em minha homenagem, então abrirei um botão da minha blusa e direi: amado, me beija!         

   

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

TUPINIQUIM

Ontem deitei-me tranquilo
mas despertei aborrecido no meio da noite
e irritado por acordar na cama dura
de cobertor curto e mosquitos
penetrando no meu corpo.

Abatido diante da realidade crítica
embriaguei-me sem culpa
e sonhei que era feriado
"Dia Nacional do Sonho"
promulgdo por lei federal,
aprovada no Congresso
pelos deputados delirantes.

Então sonhei que usufruia
todas as benesses da terra
que todas as coisas
existiam para o meu deleite
e tudo era permitido.
As imagens se superpunham
de maneira veloz e diversa
e como em toda a história
apareceu o contraponto:
surgiu-me uma dor nos rins
mas o hospital foi fechado
pelo Sistema de Saúde;
desesperado, eu grito:
socorro!Acudam-me,
quero um exorcista, um Pagé,
um macumbeiro, um copo d'água.
Apesar da dor, outras cenas cortam minha visão
como num sonho acordado:
momentos recontados da nossa história
em cima de carros alegóricos
repletos de mulheres nuas
 numa festa pirotécnica
transmitida pela rede teleguiada
De repente acordei com batidas na porta,
era o homem da loja que veio buscar
o aparelho de tv de prestações vencidas.

A BREVIDADE DA VIDA

A minha geração passará
como também passarão
as gerações subsequentes
assim como passam os dias,
os anos, os séculos, os milênios...
E ficará apenas
a área de transferência
onde armazenamos os sonhos
para ser recuperados
e vividos à posteriori...
Mas a vida é exígua
tal como um sopro no abismo
e o homem, um eterno aprendiz
na arte de viver,
que no ocaso da existência
solicita ao árbitro do jogo
uma compensação de tempo
para retornar àquela área de transferência
como se fosse possível
reverter as leis físicas,
resgatar o elixir da juventude...
Mas o tempo concedido
é menor que o delírio criativo de Proust:
Albertine já morreu
e o caminho de Germantes não existe...

NUNCA, NUNCA MAIS

Passamos a vida inteira
falando aleatoriamente
a palavra nunca;
a usamos, quase sempre, inadequadamente.

Eu mesmo, muitas vezes
falei sob qualquer pretexto
nunca isso, nunca aquilo
ainda que fora de contexto.

Mas depois que o meu filho partiu
deste mundo para sempre
eu senti na carne o sentido
da palavra nunca
e também da frase "nunca mais"